sexta-feira, 11 de julho de 2008

Ramón

— Vai ficar aí largada, menininha?
Dei o meu sorriso mais cínico, enigmático em estilo La Gioconda, irônico, ilegível. Tudo junto.
— Adoro me sentar na calçada e ver os bêbados voltando pra casa, após dançarem horrores.
— Não parece ser do seu feitio.
— Eu adoro a calçada, o asfalto… Quem inventou o chão? Ele tem dono? Veja só, há duas horas eu caí e resolvi ficar aqui mesmo, sentada, pensando num monte de bobagem. Nem queira saber.
— Tem money?
— Sem dinheiro, como cumpre o verdadeiro franciscano da noite. É noite? Dependendo do horário. Não importa muito. Não agora. Não hoje. Não nesse momento. Não pra sempre. Por que é que quer saber? Adianta me assaltar?
— Não vou te assaltar. Já é madrugada. São 3:06,
— Como você sabe?
— Eu vejo pelas estrelas. Olha, eu sou um bêbado da madrugada que volta pra casa.
Aí eu olhei pra ele. Não tinha olhado. Não olhado direito. Olhado, sabe?
— E é só. Você é um bêbado dançarino que parece sóbrio, que volta pra casa na madrugada.
— E você? O que é?

Mas que merda! O que é que se responde quando alguém pergunta isso? Olhei para o ser ainda não-identificado e quase convulsionei. Só por não ter idéia do que dizer.

(O que eu sou? Como assim? Olha, eu vou te contar um segredinho: eu sou uma escrota que senta na calçada e fica fingindo um ar desinteressado. Como sempre. Eu sou Raquel e eu faço parte da massa que gosta de se fazer de intocável e inatingível. Eu sou uma retardatária. Desculpa, mas eu sempre chego atrasada, eu nunca chego na hora certa, aliás, eu nunca sou certa em nada, eu não sirvo pra ser cosmopolita. Eu não sei o que é que raios eu sou. Deus poderia responder por mim. Eu sou uma ridícula dos sonhos perdidos. Ah, como isso soou bonito. Eu tenho idéias indefinidas e complexas. Um dia eu te explico. Não, mas é claro… mas é claro que existem os dois lados da questão. Eu posso ser tudo o que você quiser que eu seja. Mas é claro que eu não sou nada, nem ninguém.)

— Eu sou a pessoa que conversa com os garçons porque se sente só.
— Incrível.
— Absolutamente. Olha, eu odeio o Brasil. Não o Brasil porque é Brasil, não vou adotar aquele discurso pronto de que brasileiro é ignorante, etc. Acho cafona. Cafona não… Cafoninha. E eu não odeio o Brasil. Eu desgosto. Nunca vi lugar pra gostar tanto de escada. Eu contei. Para sair do metrô, meu transporte predileto, é, eu sou pobre, é eu não tenho dinheiro, eu não ando de ônibus porque eu tenho medo de nunca mais voltar, ehr… bom, para sair de lá eu preciso subir 156 degraus.
— Imagino que esteja indignada.
— Tão indignada que eu sentei aqui e pretendo ficar aqui pra sempre. É vodka aí?
— É. É sim. Eu roubei.
— Vai me roubar também? Olha, eu tenho um papel, tá meio amassado, mas tem alguns pensamentos meus. Os desconexos. Olha, eu tenho uma vida, eu gosto muito de muita gente, mas pouca gente gosta de mim, eu tenho uma vida, eu te dou o papel e você me deixa ir, não pega o canivete não, nem me aponta uma faca. Querido, eu tenho uma vida, eu tenho uma família, tá certo que eu não gosto muito dela, mas isso é sempre argumento. Não é? Vê, eu preciso salvar a vida de muita gente, olha, eu ainda tenho que amar muito, evoluir, pelo amor de Nossa Senhora, sei lá, não me rouba não, olha, você não precisa me salvar. Eu te conto a minha vida inteira. Eu te conto até o que é que eu sou. Eu tento contar, eu tento explicar. Mas, meu senhor, meu querido, não faça isso comigo, isso, you know… de me roubar, porque senão eu vou ter que te matar e tomar um gole dessa tua vodka aí.
— Ficou louca?
— Eu sempre sonhei fazer esse discurso de honestidade, cara. Eu poderia ser carpideira. Escute, você tem nome?
— Tenho não.



— Você vai pra casa?
— Eu vou.
— Escute, eu sei que nos conhecemos hápouquíssimo tempo. Eu nem sei o seu nome, olha, talvez eu esteja indo rápido demais, menininha, ai, céus, nunca tive uma coisa tão difícil pra falar na minha vida medíocre, olha, bom, eu tenho um nome feio, pode me chamar de “Jão”, eu não sei se você quer, se… se você pode, sei lá. Vou respirar e dizer tudo de uma vez, tá?
Quer ir ao supermercado 24h comigo comer bolo de abacaxi?

6 comentários:

Veriana Ribeiro disse...

que post mais bunitinho cuti-cuti. Acho que vou começar a ficar em calçadas no meio da madrugada, pra ver se encontro alguém na minha vida com nome feio.

beijinhos na sua testa, moça fofa!

Nathália disse...

Eu não paro de mudar o layout do blog. E você não para de mudar o nome do seu.
Hahahaha.

Sabe, sentar na calçada não é do que mais gosto, mas volta e meia faço isso. É bom.

Eu queria fazer um comentário decente, mas só vou poder quando eu voltar do curso. E no caso, depois da ginecologista.
Por que tô te contando isso?

Então, né... Amo você, little strawberry.
Mordidas!

eu, iaiá. disse...

sabe, da primeira vez que eu li um texto seu, a primeira coisa que pensei foi "ah, uma idiotinha"! você não passava uma idéia exatamente de idiotinha, só que eu, na minha vontade de me defender e não gostar de pessoas erradas - ou seja, todas - tomava um atalho rápido e rotulava logo, para não ter perigo.

acontece que na verdade você tinha era aquele ar calculadamente irresponsável, daquele tipo que coloca o quadro do blow up de ponta cabeça na parede da sala e acha que a proposta é contemporânea. e também daquele tipo que nunca vai confessar para os outros que acha que a proposta é contemporânea porque isso seria cafona.. enfim, o tipo que é pouco preocupada com a opinião dos outros, e pensando bem, também é pouco preocupada consigo mesma. daí eu me lembro que dias depois, você comentou sobre um namoradinho seu. e eu pensei: "gente, mas era um garoto!" - como se logo VOCÊ não pudesse ter namorado um garoto! naquele momento eu não percebi, mas no fundo eu estava gostando de você desde aqueles primeiros dias! o que importa é que não adiantou rotular de idiotinha, nem pensar no quadro do blow up de ponta cabeça (ou será um pôster de um filme do godard durante o qual você dormiu durante quarenta minutos?), nem pensar no agarramento com o seu ex porque no fundo
no fundilho
eu estava com ciúme
sem ao menos ter visto você
e eu
no fundo
penduraria um quadro de odete lara de cabeça pra baixo no meu quarto
ou de um filme do sganzerla
ou da maysa
ah penduraria
penduraria mesmo

e eu ainda não encontrei você! tudo continua no mesmo lugar, aahh. o que talvez esteja diferente é uma certeza de que sim, eu gosto, ah, como é difícil dizer isso, eu amo você, menina. tanto! e se eu cruzasse com você na rua, ah, eu acho que ia saber que era você, sim! eu ia sentir. hahahahaha. eu acho. ^^

Nathália disse...

Então, eu ia fazer um comentário decente, mas não tô bem para isto.

Com licença, vou dormi.
Sim, às 19:20.

Nathália disse...

dormir*

Nathália disse...

Hahaha! Gioconda!
Adoro esse nome. Vou por na minha filha.
Mentira.

Então, nem gosto de sentar na calçada, mas às vezes faço isso. Mas tenho um pouco de medo dos bêbados.
Já encontrei alguns legais, mas sabe, tenho medo deles vomitarem em mim... Sei lá.

Eu sempre pensei que as horas se viam pelo sol e a direção pelas estrelas. Mas sabe, existe gente com superpoderes, então não duvido mais de nada.

O que você é... Quem é você.
O verbo 'ser' não pode ser explicado.
Como explicar um verbo que se define com ele prório?
"O verbo ser é..." Viu? Não pode.
Logo, não podemos responder o que somos. Só dá pra dizer nossas características e assim forma-se a idéia.

Escada, meu bem, escada é um aliado da saúde.
Como se eu me importasse. Hahaha. Sou a maiooooooor sedentária. Uma coisa.

E, olha, um dia a gente pode sair e comer bolo de... sei lá... laranja. Mas de abacaxi não, tá bom?

Beijo, moranguitcho!