sábado, 29 de março de 2008

Vida idiota

Não era pra ser. Já cansei de muitas coisas. E eu queria mandar toda a tristeza se foder. Pois é assim que eu penso. Mas é assim, então tá tudo certo. Fica assim. E quando eu corto cebola e meus olhos começam a lacrimejar, eu aproveito pra chorar todas as minhas dores. E eu cansei. Há muito tempo.

Já nem sei. Penso nas coisas da vida e essas questões filosóficas profundas. A solidão. A sociedade.
Comecei a escrever aqui num momento de extrema solidão e eu cansei de chorar. Cansei de cortar cebolas e chorar todas as dores. E eu prefiro acreditar que nasci pra mudar o mundo do que admitir que eu sou uma garota fodida que já andou da Tijuca até Ipanema só pra ver o céu, o asfalto e as pessoas que julguei bonitas por dentro. E, relendo o que eu escrevia, passei a me compreender melhor. Mas eu ainda sou um mistério. Complexa demais. Chata demais.

E, ainda relendo o que eu escrevi, vi o quanto mudei e o quanto não mudei. Mudei algumas opiniões em relação a questões pessoais, mas não as do mundo.
As características e os hábitos continuam os mesmos. Eu ainda vou no cinema sozinha. Eu ainda gosto de ohar pro céu. Eu ainda me apaixono absurdamente e constantemente por gente desconhecida. Eu ainda sou tímida. Eu ainda escrevo com a mão esquerda.
Mas eu não me importo. E eu não me importo de não ter dinheiro pra fazer nada e de andar a cidade inteira a pé. E eu não me importo de ser mais uma garota fodida no mundo. E eu não me importo de nunca ter aberto uma lata com um abridor de latas e ter usado a tesoura perfeitamente. Não me importo mesmo. E pra mim tanto faz. Eu me sinto feliz assim. E eu estou feliz tá tudo bem. Fica assim. O destino quis, Deus quis, o Diabo quis, o céu quis, Nossa Senhora quis, o tempo quis, eu quis assim e assim que é e que vai ser.
E eu me sinto feliz porque eu conheci as pessoas mais bonitas internamente do mundo inteiro. E eu ainda, eu ainda me marco por pequenos fatos e acontecimentos aleatórios do cotidiano.

Ontem eu conheci a Eduarda. A Eduarda mora no Rio Comprido. E ela tinha um sorriso muito bonito. Sincero, simples, honesto e bonito. Falávamos dos abraços involuntários no metrô. E eu estava abraçando ela — involuntariamente. Estendi minha mão (com toda a dificuldade do braço quase arrancado do corpo pelas pessoas) e me apresentei. Disse “Sou Raquel e não aperto a pasta de dente no meio.”
Ela sorriu.

E ontem eu conheci o David. E nós ficamos analisando toda a estrutura do Centro Cultural do Banco do Brasil. E aquele jardim voador, sei lá.

E eu conheci o André. O Andre não sorria muito e não analisava Centros Culturais. Mas compartilhávamos muitas opiniões. Lembrei da Thamires. Riquinha, comum, usava saias e pedestais, loira dos putas olhos azuis, cabelos compridos, linda e lady. Meio fresca. Mas eu adorava aquela garota. Ela era tão… Inclassificável. Era muito bonita por dentro. Pois é.

Onde eu estava mesmo? Oh, sim.

Eu sou feliz assim. Culpa da vida.

domingo, 23 de março de 2008

Sorria pra mim de uma forma encantadora. Sorriso aberto, receptivo e largo. Sorria largo mesmo. Coisa de quem está feliz. Dizia bobagens como “hoje a lua tá linda! Tão esférica! Linda, cara! Tá linda!” e eu dizia “o formato da lua me lembra o meu rosto. Não sou linda.”. Olhou-me por uns instantes. Disse “você é linda também, cara!”. Eu digo “sou linda e esférica.”. “Deixa disso! Você é linda! E legal, e interessante, e com os olhos bonitinhos. Você é uma pessoa tão… Tão… Tão…”. Deu um sorriso débil — mas lindo. Aberto, receptivo e largo. Uma ponta de malícia. Olhar malicioso. Nos olhamos por alguns instantes. Nos beijamos. Não sei se foram por segundos ou horas. Eu não preciso de tempo. Tempo pra quê? Instantaneamente começamos a rir. Rir da situação e da vida. Foi divertido e imbecil. Paramos de rir. Ficou me observando. E disse:
— Você deveria ser canonizada!
— Por quê?
— Porque você é linda, porque você é especial e porque você é foda, garotinha.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Era tudo verdade

Meu nome é Raquel. Não me lembro exatamente da primeira vez que eu queimei meu dedo. E eu posso ver tudo, o mundo. Do avesso, inclusive. Senhor, pode ser aqui. Estou no mundo a passeio. Ô seu motorista, pode parar o mundo que eu quero descer aqui mesmo. Obrigado.
Sabe que eu nem sei? Eu não sei de nada. Hoje eu ajudei uma mulher dos olhos rasgados que tinha um inglês bem difícil de entender. Era o sotaque, sei lá. Eu andava e ouvi algum barulho mais ou menos audível. Algo como “esses brasileiros não entendem nada do que eu falo”. Lembre das aulas de inglês. Can I help you?
Ajudei-a. Era um barzinho, bonitinho, simpático e aturável. Ela comeu, agradeceu e foi embora. Eu pedi um café. Pareciam ter colocado amplificador de cheiro, guria. Absurdo. Senta-se um cara que, visivelmente, estava lá para conquistar alguém. O rapaz diz alguma coisa, mas eu não ouço. Estou nos meus pensamentos. Não respondo. Uma ruiva de verdade senta ao lado dele. Acho que começam a conversar. O café acaba e eu só olho o açúcar no fundo. Eles conversam de verdade. Passo a ouvir a conversa. “Escute… é… tudo… ruivo?”. O sorriso da ruiva se desfez. Fica séria. Sorri novamente. Solta uma gargalhada. “Se eu responder essa pergunta imbecil, certamente parecerá que estou interessada em você, pessoa igualmente imbecil.”
Acho que o processo da conquista foi por água abaixo.
Essas coisas de conquista me lembram relacionamentos que me lembram os sentimentos que me lembram os sentimentos de gostar de alguém. É bom gostar de alguém. É bom somente no começo, porque depois chega a fase da sofrência. Eu diria que quase todos os meus amores foram platônicos. Isso é, porque eu já gostei e gosto de muita gente. Deve ser a timidez. Não tenho toda a lábia da conquista que nem o rapaz para com a garota ruiva. Lábia da conquista até tenho, mas não é nesse sentido em que eu estou dizendo. Só para as pessoas. Chega.






Só pra dizer a verdade: era tudo mentira.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Atentado

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Vocês viram Duas Caras ontem? Rolou um barraco. Peço perdão antecipadamente, porque certamente ofenderei toda a bagagem intelectual de todos. Incluindo a minha, é lógico.

Desde que comecei a trabalhar eu comecei a ver essas tolices que se vê na TV. Duas Caras, que se revelava uma novela merdal (que termo horrível, meu Deus!) aumentou o patamar.

Tem um núcleo evangélico, que é super respeitado na novela e tem a evangélica-mór (que é absurdamente religiosa e exagerada). Daí que também tem um threesome, um triângulo amoroso e todo mundo achava esse triângulo a maior pouca vergonha e tudo mais e o negócio bombou quando eles compraram um colchão king size que ocuparia a sala de minha casa inteira. Todo mundo ficou boquiaberto!
Daí que ela (a evangélica-mór) conseguiu juntar todo o povo que ama a moral e os bons costumes pra botar pra f*. Isto é, chutar satã deles ou matá-los, sei lá. Nem entendi. Ela ficou o dia inteiro atiçando o povo.

E a coisa foi quente! Bem quente! Chegaram lá, tacaram pedra na mocinha do triângulo, ela quase desmaiou e tudo. Ficaram tentando entrar na casa e os dois rapazes dizendo não-não-não e todo mundo sim-sim-sim e levaram uma surra de sair sangue. Quem levou surra também foi um mocinho que estava tentando conquistar o outro mocinho — mas só pra arrancar dinheiro dele. Fizeram um apedrejamento king size! Depois que os três rapazes estavam derrotados e a mocinha dentro de casa, conseguiram entrar. Só que ela tinha fugido!
A Edivânia (vulgo, evangélica-mór assassina organizadora de barracos) rajjjgou a cama deles to-di-nha.

Chega.

Sabe que hoje eu peguei chuva? Eu tinha um guarda-chuva, só que eu esqueci. Uma pena. Está chovendo, desde ontem, anteontem, sei lá. O dia está bonito. Mas na verdade o dia nem está parecendo dia! Tá mais pra noite mesmo. Sabia que da minha cama dá pra ver o céu? Às vezes, eu fico olhando o céu, quando estou deitada. Ele é tão bonitinho. Só que eu só paro pra olhar na hora em que eu vou (tentar) dormir. E três estrelas que eu sempre olhava sumiram! Assim, pf. Elas estavam em fileira. Uma pena. Se foram.

E eu queria mandar um beijo pro Gabriel, porque ele não tem dedos pra falar comigo e isso é uma coisa muito bonita.

E um dedo no olho da Nathália, porque, putz… Eu não lembro exatamente o por quê disso. Mas eu sei que ela anda merecendo. Nem sei se merece de verdade. Na verdade, eu estou pensando agora, ela é boazinha, tipo Madre Teresa de Calcutá mesmo. Sabe que só agora, relendo o comentário pra tentar lembrar o motivo disso tudo, eu percebi que ela me chamou de filha da puta? Olha só, que audácia! Que audácia!
Eu chamei primeiro. Mas eu não lembro o por quê. Estou me contradizendo, logo eu, que lembro de tudo, com detalhes. Que raiva de mim. Não gosto mais de mim. O que eu lembro de ontem? Raquel, vamos mentalizar: “Babaca! Escrota! Filha da puta!”

Só lembro disso.

Beijo pra menina do Acre que volta e meia aparece. Acho que você usa óculos. Estou precisando, sabia? Hoje me senti A Própria Cega tentando ler uma propaganda.

Dor no corpo. Dor de cabeça. Tosse. Dor de garganta. Todas as dores do universo. Resfriado. Alergia ao perfume fortíssimo da senhorita do elevador. Não sei como vou sobreviver a esse ano inteiro.

Aliás, quase morri no domingo e na segunda. Preguiça de contar. Virose maldita. Humpf. Ham. Grr.

sábado, 8 de março de 2008

Dia cheio de coisas

8 de março de 2008.

Hoje é um dia especial até.

Hoje é o Dia Internacional da Mulher, isto significa que quando eu sair na rua, provavelmente ganharei um buquê de flores, provavelmente sorrirei e provavelmente ficarei sem saber o que fazer com o futuro buquê. Todas as pessoas que possuem dois cromossomos X. Dia que, na minha opinião, não é muito importante, mas tem um grande significado. Tudo tem significado na vida e nas coisas. Eu poderia ficar horas e horas falando sobre o significado das coisas, sobre a vida, sobre as coisas em que não podemos ver ou pegar — só sentir. Perdi a linha de raciocínio.

Hoje é aniversário do meu pai. Isso significa que se ele não existisse eu não existiria. Digam-me, como que um ateu convicto, ciumento, machista, chato, paranóico e uma mulher extremamente religiosa (e que odiava todas essas características nele) iriam ficar juntos? Devo ter nascido pra mudar o mundo.
Engraçado que ele esse machismo dele, um dia, sumiu, assim, sumiu, puf, ele começou a ser um feminista, falar sobre o direito e o poder feminino.
Acontece que todos esses traços feios da personalidade de papai eu herdei. Ai, que saco! Lógico que eu gostaria de mudar, mas eu não quero e nem de esforço pra isso. Porque cada um é único. Poderia falar sobre o quão únicas as pessoas são. Mas aí eu me lembro daquelas pessoas alienadas que parecem que não tem opinião própria. E isso me irrita. Engraçado que há alguns meses minha mãe também mudou. Do nada! De rompante! De repente!
Mas mudou muito. Na minha infância ela também era do jeito que está atualmente. Na minha infância, aliás, ela sempre dizia isso:

— Lembra que o seu pai faz aniversário no Dia Internacional da Mulher?
— Lembro.
— Então, gostaria de te dizer que ele é um travesti e que vive com outro rapaz. Tudo bem?
— Terei duas mães?
— Não se incomoda?
— Não.
— Eu estava brincando!
— Ah! Sem duas mães então?

Ela brinca assim até hoje e eu acho graça. De vez em quando ela o chama de Frei José. José. José. Nome muito comum! Tipo João e Maria. Mas ele é único. Esse negócio de personalidade é algo muito complicado. Complicadíssimo! Fato é: chata, complicada demais, paranóica, ciumenta.

Não. O último item exclua. Melhorei muito. Muito bom, Raquel. Muito bom. Tudo bem que há um ano eu era tipos Giulia Gam. Um perigo. Mas esse fato não me fazia mal, não me deixava triste, só preocupada — acho que era o medo absurdo de ficar sozinha, sei lá. Eu só perdia umas noites de sono e além de que, não dizia (e não digo) pra ninguém. Guardava pra mim. Simples assim. Tenho que parar com isso. Isso de guardar tudo pra mim. Eu preciso dizer pra todas as pessoas escrotas do mundo o que elas são. Mas atualmente, estou relaxadíssima com essas coisas.

Ah! Também herdei o fato de flertar com pessoas desconhecidas. Nunca tínhamos falado sobre isso até um tempo atrás. Ele também faz isso. Eu também. Incrível. Só pode ser de sangue. E o fato de não gostar de peixe e tudo que vem do mar. E de não gostar por antecipação (quesito comida). Além da chatice habitual, o mau-humor matutino, o pessimismo (sim, não sou o coelhinho saltitante que todo mundo imagina) — afinal, o otimismo atrapalha. Você cria expectativas e se elas vão pelo ralo… A decepção é muito grande.
Se bem que, pensando bem, eu nunca me decepcionei e olhe que não foi por sofrer por antecipação. Blé.
Um dia, uma Mariana que gostava que Backstreet Boys disse pra eu parar de ser assim. Assim como?! Nunca soube direito, na verdade. Se conhecer, no meu caso, é algo quase impossível, já que eu sou complicada demais, tudo demais. Eu posso ficar um bom tempo com qualquer pessoa, falando sobre mim. E não é o ego lá em cima não! É que a minha vida e a minha pessoa daria um monólogo interno sem fim mesmo.

Hoje verei Bob Dylan. Aliás, já estou atrasada! Super em cima da hora. Mas eu sou tipo noiva: sempre me atraso. É marca registrada. Raquel, a atrasada. A Jéssica, que é uma pessoa da qual gosto muito e nunca mais verei (não, ela não morreu) me disse o seguinte quando cheguei cinco minutos antes da aula do curso de espanhol (que já acabou há décadas):
“Nossa, um milagre! Gente, isso merece uma comemoração. Que emoção!” (disse batendo palmas)

Isso é, se você for sair comigo, chegue no mínimo dez minutos depois do combinado.



Feliz Dia Internacional da Mulher à (nunca sei usar a crase) todas as mulheres do universo.
Feliz aniversário, pai.

E pra mim, claro. Porque terei o meu momento fodão do ano de ver o velhote gostosão fanho (mentira): Bob Dylan. Esperem orgasmos fantásticos.

Beijo!

(*) Andressa Fontes — é, a menina tem nome. Veja só, eu não te conheço como eu não conheço quase ninguém que aparece nesse… Ponto de Encontro do Acaso? Talvez. Sei lá! É complicado, porque eu nunca sei o que dizer direito. Fico impressionada, chocada (choco-me com facilidade), “absurdada” quando pessoas aparecem dizendo que lêem esses devaneios que escrevo despretensiosamente. Mas eu fico absurdamente feliz, sabia? Muito feliz. E olha que felicidade não é uma coisa tão comum hoje em dia, mas olha, me encontro com sorrisinho bobo nos lábios. Talvez seja pelo fato de hoje… de hoje eu conhecer um gostosão que eu nunca pensei que fosse ver na minha vida. Talvez seja pelo fato de uma pessoa em meio há bilhões aparecer. Uma pessoa da qual não faço a mínima idéia de quem seja, mas que imagino que seja única. Blábláblá. Todo o papo incrivelmente chato sobre o quão individuais as pessoas são.
Que bom que acha bonito. Eu tenho os meus posts que eu vejo e digo “Oh! Que bonito.”, acho que é mais bonito porque faz algum sentido pra mim. Sentido que qualquer dia desses explico. Sentido que só eu vejo, que só eu entendo. Ou alguém mais entende, sei lá. Tem posts que eu digo que é bonito porque é real, digo que é bonito porque na hora eu achei bonito e pronto. Tipo esse post aqui ó.

Sabe o que aconteceu? Em um feriado prolongado, por impulsividade, fui pra São Paulo fazer nada. Encontrei com um amigo de longa data, cujas calças eram lindas, velhas. Ele tinha uma camiseta da qual eu não lembro a cor linda. A camiseta em si era linda, estava manchada e até a mancha era linda. Daí que andamos por toda a Avenida Paulista tomando no gargalo um refrigerante de uma marca extremamente desconhecida. Tão desconhecida que os dois litros do líquido custaram R$ 0, 99. Daí que era crise aérea, ninguém estava querendo me hospedar e eu fui pro aeroporto dormir. Dei entrevista e tudo. Disse com a atriz dentro de mim nunca antes despertada. Passei o feriado inteiro com esse amigo. Então fui para a casa da mãe dele, conheci a mãe dele, com um sotaque italiano fortíssimo (ela costurava):
— Essa calça está muito apertada, meu filho. Assim os outros vão pensar que você é viado, filho! E você, filha? Não está vestida como uma menina deve se vestir.
Aí ele disse “eu gosto da calça assim e eu gosto dela assim. Então é assim e pronto”

Aí eu fui conhecer a casa dele. Daí que a casa era uma bagunça, mas tinha um cheiro agradável, era uma bagunça bonita. Acho que a minha casa seria assim. Fomos no Bixiga (é assim que se escreve? Sinto-me uma retardada) para ver o tal bolo de quatrocentos e tantos metros. Era uma decadência aquilo. Ficamos com vontade de comer bolo. Não tinha trigo. Aí eu fui comprar o trigo, boazinha que sou. Comprei o trigo e ele, com ar de decepção, perguntou se eu tinha comprado o trigo sem fermento. Era com o meu dinheiro, então, fermentado com o preço mais barato. Foi isso. Foram dias divertidos.
Ele era muito mais ciumento que eu. Aí que ele me levou pra conhecer os amigos engraçadinhos dele. Ele conhecia muita gente. Daí apareceu uma loira bonitona que ficou a mão no meu cabelo, bagunçando, fazendo cafuné, alguma coisa assim. Eu normalmente me irrito com isso, mas eu não me irritei, porque estava leve, alegre, satisfeita, sem paciência pra me irritar.
— Seu nome é… ?
— Raquel e o seu?

Ele tapou a boca dela e tratou de pedir para ela parar de bagunçar meu cabelo, puxou-me e sumiu comigo na multidão. “Esse negócio de nomes é besteira. Se quiser, depois te digo.”. Estava com ciúmes. Ah, que bobinho. Que fofinho. Nhon! Nhac!
Acontece que ele nunca disse. Nunquinha! Falta-me tempo. Estou atrasada! Querido cujo nome não citei pelo fato de você ter dito que nomes são relevantes — saiba que eu te amo muito, tá? Muitão.

Lembrei agora! Comecei a escrever porque já estava quase enlouquecendo pelos pensamentos. E eles não saíam da cabeça. Ainda não saem, é lógico. Mas eu me sinto melhor assim.

Beijo-beijo!

quinta-feira, 6 de março de 2008

Linha dois

Esquema do metrô:
(palavras de amiga)

“Na linha um, as pessoas são educadas, mais civilizadas. Cedem o lugar destinado a idosos, gestantes, mulheres com crianças de colo e deficiente. Na linha dois não, é um vuco-vuco, empurra-empurra, é soco, é tapa, é gente sentando nos bancos laranjas e fingindo que tá dormindo. Os bancos laranjas são para as pessoas que citei acima. Incrível. Eu moro em Vicente Carvalho e menina, trabalho na Tijuca! Então não me diga que estou errada, pelo amor de Deus, Raquel! Pelo amor de Deus.”

Conheci um rapaz chamado David. Ele parece comigo. Eu estava no metrô, pensando na minha infância, nostalgiando. Daí que eu lembrei de um professor que eu tive no Jardim de Infância! (detalhe que eu tive dois professores nessa época)
O nome dele era Aufeu, ele tinha a voz hiper grossa. Até a risada dele era em um tom grave! Primeiro dia de aula.
— Oi, meu nome é Aufeu. Podem me chamar de professor ou mestre. E tio.

Acabou a nostalgia. Eu fiquei pensando que parecia o tempo nunca passava. Às vezes o tempo não passa. Às vezes o tempo pára. Às vezes o tempo passa mais rápido e às vezes tudo oscila. Voltei a realidade, eu estava perdendo a noção do tempo só porque estava mergulhada em pensamentos. De rompante, resolvi perguntar:

— Tio, que horas são?

Meu rosto começou a doer. Maldito professor. Que vergonha! Que vergonha! Calma, um, dois, três, respira. O rapaz deveria ser um ou dois anos mais novo que eu.

— Primeiro: eu não sou seu tio. Mas eu gostei do nome. Segundo: são duas horas.
— Desculpe-me, tio.
— Qual é o seu nome?
— Raquel.
— David, mas pode me chamar de Tio.
— Tio David soa bem legal.
— Tio David me lembra Pai Tomás.
— Sabia que está reprisando? “A Cabana do Pai Tomás”, mas, com “o perdão do meu francês”*, essa cabana remete a um puteiro.
— Caramba! Pra mim também!

Ele ele era loiro e era incrível, porque ele parecia, caramba, quem ele parecia? Ele não fazia um fenótipo loiro, mas ele me lembrava muito um amigo meu, magrinho. Eu lembro que eu disse “Não corta o seu cabelo, ele está lindo”. Atualmente, ele raspa a cabeça regularmente. Então eu disse;
— Não corta o seu cabelo. Quero dizer, deixe como está. Seu cabelo é lindo.
— Jura?
— Que emoção! Farei o que diz!

Ele me lembrava aquela atriz… como que é o nome dela? Sem brincadeiras… Aquela… Da voz rouca, mas não sensual.

Um dia eu lembro. Um rapaz muito simpático, me pediu conselhos em relação a namorada mega-mega-mega ciumenta dele. Ele me disse que ele tem muitas amigas-amigas-mesmo mulheres. Eu disse que eu era mais ou menos o inverso, que posso fazer? Gente do sexo masculino costuma ser super legal comigo e gente super legal comigo é algo incrível… Eu começo a sentir vontade de ser boazinha e de ajudar. Coisa de louco. Um bonzinho ele, muito simpático e sorridente. Aí falamos sobre os inúmeros relacionamentos dele que tiveram fim em decorrência dessas amigas-amigas-mesmo deles que ficam abraçando, beijando, mordendo, apertando, beliscando e blé.
Tivemos muito tempo, porque ambos (oh!) estávamos no metrô de bobeira, pra fazer nada, saco vazio. Um pitelzinho de rapaz. Merecia umas mordidas.


Daí que eu tive anteontem defender a minha dignidade. Eu fui no supermercado e a mocinha do caixa estava querendo negar-me meu troco honesto de R$ 2, 00!
— Escute, eu venho aqui todo santo dia e não é possível que a senhora esteja duvidando da veracidade do que eu digo. Olha, eu te dei cinco reais, gastei três, logo, o meu troco é de dois. A conta é fácil, meu bem.
— Você me deu três reais.
— Não dei.
— Deu sim.
— Não.
— Deu.
Aí apareceu a fiscal, com aquele ar de sou-muito-melhor-que-você e disse que se caso eu estivesse falando a verdade, que voltasse no dia seguinte para reclamar o meu dinheiro. E fui, fui mesmo. Fui anteontem. E dei um dos meus sorrisos mais cínicos e verdadeiros. Idiota a situação, mas eu provei que sou digna. Oh!

(*) “Perdão do meu francês” é a tradução para as terras tupiniquins da expressão “excuse my french”.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Coração

— Por que o coração é tão simbólico? O coração, o amor. Sabe? Coração-amor. Nada a ver. O coração já é algo ultrapassado. Por que não rins ou o fígado?
— Você partiu o meu fígado.
— O meu fígado bate por você.
— Como vai o seu fígado?
— Doendo.
— Muito?
— Muito.
— Partido?
— Totalmente.