segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Olhares intensos que me deixam encabulada

— Tu sabe cruzar as pernas de maneira desafiadora?
— Cruzo de maneira que um homem não conseguiria. Por que a pergunta?
— Só pensava em cruzamentos de perna. Só isso.
— Sou bem elástica.
— Tu consegue beijar seu umbigo? (por que eu tô falando “tu”? merda, eu sou carioca, eu falo você)
— Boa pergunta., consigo colocar os meus pés atrás da cabeça. Esse é o meu talento excepcional. Qual o seu talento?
— Contar história. Isso é talento? É, né?

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Leãozinho e Magritte

— Oi, leãozinho! — ela sorri e me dá um singelo beijo no rosto.
— Leãozinho?
— Você boceja igual a um. Deveria bocejar mais vezes pra mim — é que eu acho bonitinho.
— Sabia que nunca me beijaram anteriormente enquanto eu bocejava?
— Repito: você, realmente, deveria bocejar mais vezes.

Esse mundo é muito, muito, muito surreal. Eu estava no metrô (sem corpos em volta ao meu, porque eu estava bem sentadinha na minha) quando um homem adentra o vagão e ele começa a cantar, bem alto, hinos evangélicos (eu sei, porque mamãe tem aquele CD, um inferno, ela colocava o dia inteiro) e, entre uma música de outra, ele falava alguma coisa tipo “o diabo não vai vencer, Jesus é a solução” e as pessoas, né, horrorizadas/constrangidas e eu ria, sabe, primeiro foi só um sorriso, mas, quando eu dei por mim, eu estava gargalhando, assim, bem alto, sozinha, porque as coisas e as pessoas estão muito fáceis para que eu tenha pensamentos óbvios, como essa minha conclusão de que o mundo é muito surreal. Sabe, quando ele parava pra respirar, o silêncio, nooooooossa, o maior silêncio, assim, sabe quando você diz alguma coisa e todo mundo fica constrangido e… Então! Aquele silêncio. Nossa, nossa, nossa. Maior coisa.
E ontem? Ontem eu peguei o metrô (perdão, nem ando de ônibus, acho irritante e tenho medo que ele mate alguém, ou que bata em outro ônibus, ou que ele seja sequestrado, sei lá, not bus) e uma menina lia um livro da Anne Rice e ela nem fazia a linha gothic-lolita-virgem, nada a ver, o corte de cabelo mais moderno, super alta, super corpo no lugar, maior bonita super super super…Deveria ser modela (modela!) e, assim, aquela multidão, depois de um dia inteiro de trabalho árduo, né, ela colocava o livro acima da cabeça e fazia a maior pose, sabe, o maior esforço e não modificava a cara, ela tava toda torta e ainda continuava a ler o livro, absurrrrrrrrrrrdo! E com aquela cara de blasé, né… Natural, eu acho, sem ser forçada… Eu ando tão besta, mas tão besta, porque quando eu olhava pra ela, aquela pose, aquele paradoxo menina moderinha not gothic lolita que lê Anne Rice, era tão paradoxal, que eu ficava rindo sozinha — espero que ela não tenha me interpretado mal, afinal de contas, eu não ria dela, eu ria da situação, das coisas, das pessoas, da vida.
E aí eu peguei o meu super livrinho de anotações adquirido na exposição da Clarice Lispector Capa de Chuva e escrevi uma coisa pro Bibo (desculpa, mas eu tive que divulgar o seu apelido) e tal, porque eu achei que ele ia achar engraçado, foi tão engraçado, eu ri tanto, a pose dela, o desconforto velado, ó pai!

E eu já disse que sou secretária assassina (a população de secretárias assassinas anda bem em alta, tipo, eu sou Raquel e eu conheço Ana Laura e eu conheço Rayza, mesmo que seja aquela coisa internética, sei lá, elas são secretárias, surreal!). Pois é, digito coisa e nãoseioquezinho e bábábá e bibibi e aí, ontem eu tive que digitar o resultado de um exame médico, acidente de trabalho de um mocinho, uma coisa, ele tá bem agora, mas ele quase ficou paraplégico, suspeita de câncer de próstata, e, ah, foi isso. Naquele laudo igualmente surrealista, assim, a pessoa que digitou (e eu sinto que foi mulher) não acertava uma concordância, não acertava nada, não especificava, surreal, cara, surreal.
Vê se isso faz sentido pra você: “O ACIDENTE PREJUDICOU SEUS MOVIMENTOS, FICAR SENTADO POR MUITO TEMPO CÓCCIX SANGRA PROCTITE (INFLAMAÇÃO CÓCCIX)”
Gente, sério… É assim mesmo? Mas, sério mesmo? Pois é, uma viagem de tóxico esse laudo, e aí, enquanto eu digitava, várias coisa nada a ver na minha cabeça, eu imaginando 'n' coisas, pensando até em poesia, falar com toda a poesia. Que palavra rima com cóccix?
Aí, no caminho pra cá, eu escuto um “psiu”, eu nem estava na terra e tal.
“Que merda, não acredito que tropecei e quase quebrei o meu pé, de novo… E por isso eu quase morri atropelada, nossa, o carro passou raspando, qual será o som da morte? Lálá, Marla Singer.” — “psiu!” — “mas que droga, por culpa daquele cara…” — “psiu” — “Eu sou inesquecível, ninguém me chama por um “psiu” bobo… E ainda sorriu daquele jeito, malicioso, dizendo que eu sou muito distraída, maior ironia do caralho… Escroto. Que escroto! Escroto… Que ódio!” — psiu — “Imbecil…” — psiu — “Babaca…” — “E as pessoas da rua me olhando, por sua culpa, desgraça… Quem me chama? Ah, não… Impossível. Quanto tempo, nossa, quanto tempo, a mulher da Broadway, aquela, que tomou café comigo, que eu conheci há dois, um ano e meio, sei lá e nunca mais vi… Ela trocou de óculos, ahhhh, que simpática, que linda, tão sorridente, adêvogada, cheia do senso de humor e o caramba, uma pessoa ótima, ótimo coração, como ela poderia ser amiga do meu ex companheiro de sala, aquele, o… Patrão da Ingrid, meu Deus… Ele assistia filmes pornôs para a terceira idade e ele tinha, sei lá, trinta anos… Nossa, que sono, que cansaço, que… ÃNHHMMMM”.

— Oi, leãozinho.

domingo, 19 de outubro de 2008

Sabádoam

Sábado foi um dia interessante. Fui requisitada para ir trabalhar e, como sou uma pessoa de palavra — apareci. Acontece que ninguém foi, mas, beleza, eu fui em vão. Sabe, sábado. Aí eu fui andando até a Glória. A pé, do Centro. Ida e volta e nem cansei. Não entendo essas pessoas que cansam tão fácil, que já ficam arfando de andar trinta metros, sei lá. Alguma coisa assim. Foi bom, muito bom. Eu gosto bastante dos meus passeios solitários por esses dias aí que não tem viv'alma pelas ruas, sempre me fazem bem, sei lá, alguma coisa assim. E, como eu sou previsível, fiquei fazendo minhas reflexões bobas (juro que sem ar de melancolia) e olhando pro céu, céu tão bonitinho, cheio de nuvens oinc e cantando músicas da Cat Power bonitinha e do Sonic Youth (as minhas preferidas, as mais entendíveis também — Superstar e Diamond Sea, com direito aos sons instrumentais e tudo, e, nossa, mania de referência, nunca gostei de referenciar nada, vá embora, mania).
Almocei biscoitos, aliás, de polvilho. É que eu quase fiquei emocionada de ver um cara que vendia biscoito de polvilho quando não tinha ninguém que provavelmente fosse comprar. Lembrei de um outro vendedor de biscoitinho polvilho que eu vi, outro dia, voltando sozinho pra casa, comendo a própria mercadoria — você pode até não achar, mas é uma cena bem tristinha para uma noite de sexta e eu lembro que era sexta porque sextas sempre são inesquecíveis.
Aí vê, eu vi um filme também, muito engraçadinho coisa e tal, onde a protagonista dizia que a cidade onde ela morava era tão miserável que não estava no mapa e nem tinha Pepsi Twist Light e eu fiquei pensando “mas é verdade, como é que eu poderia viver numa cidade que não está no mapa e nem tem Pepsi Twist Light?”. Realmente… É uma coisa a se pensar.
Quando eu vi, eu estava na porta de um casamento, analisando as roupas utilizadas pelas mulheres, numa igreja lá na Praça XV. Duas igrejas. Dois casamentos, eu fiquei dividida, de um lado pro outro, mas optei pelo casamento que estava na igreja mais bonita. Eu acho que tinha casamento na Igreja da Candelária também, eu passei lá rapidamente, mas eu acho que eu vi um vuco-vuco, então, era um casamento. Ou pelo menos deveria ser, sei lá. Mas ontem eu estava horrível, nossa, o que era aquilo, de onde eu tirei aquela roupa, mas eu estava tão feia, nossa, uma coisa. Vi um mendigo com uma mochila linda, A Mochila Mais Linda. Era um mendigo que tinha uma estética agradável também, mas, o cheiro, nossa, o cheiro, O Pior Cheiro, dava pra sentir a kilômetros de distância.
Aí que eu cheguei em casa muito feliz, porque eu moro numa cidade (grande, aliás), que está no mapa, que provavelmente tem Pepsi Twist Light, que é turística, que tem os dias de sábado mais lindos, o céu mais bonito também, porque eu fiz reflexões e cheguei a ótimas conclusões, total inexplicável e fiquei em torpor até 4h de la mañana.
Acontece que eu acordei agora e, 17:56, caramba, estraguei o meu dia. E ainda acordei com gosto de cabo de guarda-chuva na boca.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Sequestrando: causo

Algumas vezes, eu sou tão insensível que fico me sentindo mal depois. Hahahaha. O pior é que não dá pra mostrar aqui, porque aí pareceria que eu sou muito insensível, mas a conversa foi assim:

Pessoa 1: O cara que sequestrou a namorada? Matou?
Pessoa 2: Acho que não.
Pessoa 1: De boa, é só ela dar pra ele.
Eu: claro, sexo é a solução, sexo é vida. “Amor, vamos transar”, aí é tudo o que ele quer, ok, aí ela faz maldade.
Pessoa 2: Claro! Acho mais eficaz um estilo dominatrix, assim “vamos com algema que dá mais tesão”, melhor ainda.
Pessoa 1: Ela é virgem?
Eu: Se ela for virgem, a saída é dar, ué.
Pessoa 2; Sei lá, aquela ali tem cara de quem já fez barbaridades…
Eu: Ah, tipo sexo grupal, com mulheres, de todas as maneiras, com algemas e chicote, utilizando todas as drogas do universo? Sei lá, alguém aqui já ficou bêbado e apanhou, caiu, teoricamente, se machucou, sei lá? Sério, você não sente nada. Se ela for virgem, então, só ficar bêbada… Ou não, né.
Pessoa 2: De qualquer maneira, arranjamos a solução mesmo.
Pessoa 1: Alguém manda um SMS pra ela “libera a rosca aê”. Então, será que ele se mata?
Pessoa 2: Aposto um real que ele se mata.
Eu: Eu também. Mas, primeiro, mata a namorada.
Pessoa 1: Normal, né.
P.S.: Detalhe que somos três meninas INFPs. Detalhe, ó. D-e-t-a-l-h-e. Hahaha.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

LPs

Duas pessoas. Um livro e canetas pretas, desenhos e frases aleatórias. Uma toma cappuccino e outra toma vódega — pura. Essa, começa o assunto tão sempre adiado. Essa, tão sem jeito, sem respirar, sem tempo pra pensar, pensamentos que brotam como sonhos. Eu sempre digo que existem pessoas que são mais viciantes do que ecstasy.
— Não sei por que você não se rende ao meu humor sempre tão fácil. Se eu disser que eu te amo, você vai surtar e esquecer de mim? Achei que existisse sempre uma coisa padronizada, tipo encenação — eu digo alguma coisa besta e você sorri. Eu digo mais coisas bestas, entretanto, com alguma fundamentação e você sorri de novo — assim, só na base do monólogo. Aí eu sempre farei você sorrir e você vai me achar idiota e vai pensar coisas bonitas. Só que se você surtar, porque, teoricamente, eu disse que eu te amo, escute, eu não vou mais saber o que dizer e, nem o que fazer, só poderei sorrir pra você, sem motivo. Aí, todo o esqueminha vai por água abaixo, como a vódega. Vódega é como o tal esqueminha — só pura, só pura, nada de enfeites para estragar. Se eu te amar, você vai me amar de volta?
— Eu não entendo as pessoas. Mesmo não entendendo as pessoas, você, ainda sim, teoricamente — é claro, diria que me ama?
— Do you believe in love? I believe, sweetie. My descent into hell is incomplete without you. All of your phone calls in the middle of the night, now, things just don't seem right. Take your heart, put it into my own heart. Sweetie, sweetie, sweetie. Fabrico, a preços módicos, corações de todos os tipos.

sábado, 11 de outubro de 2008

Dyslexic toxic crazy fucking twisting bitch girl

Me encontro, aliás, eu me encontrava num estado ponto-de-interrogação no último mês. Um sei lá, apatia, alguma coisa assim, essas merdas. Não sei explicar. Detesto não saber explicar, principalmente quando não há ensaio, tipo ao vivo. Aí eu tento explicar, começo a gesticular, fico nervosa, começo a gaguejar — caos.
Ontem, simplesmente retornei ao mundo. Eu sempre necessito desses espaços de tempo, alguma coisa assim, meio que bonitinho. Esses espaços de algo-xis-indefinível, entre um dia e outro, sei lá. Não é que eu necessite… Mas é algo inerente a mim, então, eu simplesmente aprendi a conviver com isso (que horror).
Ontem, resolvi passear, os meus tais passeios solitários, sei lá, na minha cabeça tem tempo que eu não faço (mas eu possuo lapsos de tempos — informação não-confiável). Vi um par de brincos muito bonitinho e resolvi comprar para a minha mãe, afinal de contas, ela é uma ótima pessoa, tem um bom-humor e merece ser agradada (“mãe, comprei para a senhora, presente Dia das Crianças”). O senhor que vendeu o brinco para mim é muito simpático.
— O senhor não é brasileiro, não é?
Claro que não era! Ele não conjugava as palavras. Os olhos azuis cor-de-céu e as sobrancelhas e o cabelo branco tipo loiro. Diabo loiro.
— Não, eu sou alemão. E você, é brasileira?
Que raio de pergunta é essa? É claro que eu sou, note o meu molejo, querido. Meu molejo. Meu gingado carioca, sei lá. Como assim?
— Como assim? Eu sou sim.
— Mas eu posso dizer que você é brasileira de verdade. Afinal você tem sangue ameríndio. Talvez Peru… talvez Peru… Escute, agora você tem de ir, pelo o que vejo. Apareça aqui depois, eu posso conversar com você! Terças e sextas. Agora vá.

E eu fui, afinal de contas, sou uma pessoa livre e estou aí para o mundo. Resolvi tomar um cappuccino. Foi lindo, tanto tem que eu não tomo cappuccino, quase chorei — se não fosse algo ridículo. Fui ignorada durante uns dez minutos pela atendente, até que ela perguntou se alguém já tinha me atendido. Sei lá, curto camaradagem, “v-oc-ê!” e não “senhora” de uma mulher que poderia perfeitamente se tratar da minha mãe. E eu vi os sapatos mais feios, uma mulher que parecia ser maior boazinha, mas ela tinha os sapatos errados. Eu até acho que ela deveria ser presa. Só um pouquinho, durante uma hora, talvez.
Então eu fui andando, meu passeio solitário, proveitoso, mas, acima de tudo, solitário, eu realmente gosto daquela parte do Centro (perto da Cinelândia, por aí, sabe?), ela me parece tão… tão linda. Sério. Quase sentei em um bar daqueles lindos bares e pedi uma cerveja. Mas eu não sou chega numa cerveja (porque ela possui gosto semelhante ao da urina, sei lá) e eu estava ocupada andando. O meu ser, totalmente sentimental e movido por emoções, racionalmente, andava e, racionalmente, analisava as pessoas e seu comportamento, para parar numa livraria depois e, racionalmente, ler a última página, porque o meu ser movido pelas emoções estava possuindo ataques de querer ser racional e a minha pessoa se trata de um ser que eu convencionei a chamar de “cretina”. Sou cretina e leio a última página dos livros que não pretendo comprar.
Continuando a minha caminhada para a luz, eu passei no CCBB — Centro Cultural do Banco do Brasil, para os não-chegados. Chego a conclusão de que o CCBB é uma das minhas paixões, sei lá. Sento na escada e vejo um poeta, um tal de Guila Sarmento, vendendo poesias. Como as pessoas são absurdamente escrotas, ninguém pára. E ele fica lá, com aquela calça branca e rasgada na coxa direita. Ele não me abordou, sei lá, vai ver é porque eu pareço pobre ou porque eu tava com um puta ar arrogante (eu não sou arrogante e eu odeio gente arrogante), mas eu me encontrava muito séria, do tipo que não existe sorriso no meu mundo. Sei lá o por quê. Meia-hora depois. Eu levanto os meus olhos e digo que quero ler.
— Quero ler.
— Quer? Você gosta de poesia?
Se eu gosto de poesia? Eu gosto de Ledusha Spinardi e Ana Cristina César. Isso serve? Eu posso considerar que eu gosto de poesia? No momento eu estava no meu orgulho pessoal, auge, êxtase e tudo junto. Com sorriso cínico, meio-sorriso (que não é aberto, porque eu não sou do tipo que sorri abertamente pra todo mundo, meio-sorriso é quando eu tô constrangida, surpresa, sei lá).
— Talvez.

E li, toda compenetrandinha. Gostei da primeira até a terceira página. Ele, com olhos de azeitona (ou não) perguntou o que eu achava. Olhei bem no fundo dos olhos dele, por um bom tempo (entre trinta segundos e um minuto, muito tempo, só para olhar para alguém).
— Você gostou?
Sorri, de novo, o meu sorriso mais cínico.
— Mais ou menos.

Depois, abri minha bolsa e peguei a única poesia que eu escrevi na minha vida e que gostei. Rasguei o papel (como eu fiz no escambo com o Luísa Mandou um Beijo e tal) em volta e estendi a minha mão.
— Você que escreveu?
— Sim.

Quase dei um beijo no rosto dele, mas ele pensaria que eu sou uma depravada (depravada é o caralho, eu sou é livre, tô aí, pro mundo), algo assim e fui andando, cantando, de modo meio entrecortado, já que eu dizia “adoro ser intensa, adoro ser intensa” sem parar. Sem parar.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Passou

Daí que lá estava eu, no metrô, fazendo minhas palavras cruzadas habituais (sou senhora por dentro), tricotando <­/­mentira­> e cantarolando C'est Comme Ça <­/­verdade­>.
Levando meus olhos e vejo Flávia Alessandra, semi-nua, por todos os lugares do vagão, a mesma imagem, repetidas de maneira doentia.
Qualé da Flávia Alessandra de sutiã e calcinha (eu acho que usa cinta-liga, mas eu não me lembro, afinal, por que é que Flávia Alessandra posaria para uma foto de cinta-liga no vagão feminino?) no vagão feminino? Qual o objetivo? Uma pose pretensiosa, uma mulher fingindo-se de lolita, só faltava dedinho na boca. Não entendi. O objetivo é qual? Descobrir lésbicas em potencial?
P.S.: Vagão femino do metrô, gente. Só para mulheres. Marisa, queridas — “de mulher pra mulher”.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Petit Gâteau

Escuchad amigos, no estamos solos, nos tenemos a nosotros mismos.
Um dois dios adiós — repeat. Essas promessas, que eu faço para mim e que nunca serão cumpridas. Prometo do fundo d'alma, mas a minha alma parece que fica nas minhas beiradas, quase fora de mim. Prometo inúmeras coisas, doces e roupas, prometo pessoas, prometo situações. E prometo, como se fosse um mantra, até com uma autoridade que me falta no cotidiano que eu-nunca-mais-vou-sentir-isso. Acontece que eu sinto, de novo e de novo ad infinitum. Prometi até que não tocaria neste assunto. Mas eu sou sempre espelho, sempre replay. Preciso me reinventar. Mas eu ainda sou uma pessoa comum, que muda todos os dias. Bonito isso (mas eu ainda preciso me reinventar, porque isso me faz mais feliz). Essa criança boba, que acredita em tudo que eu digo, vai cansar um dia. Ela ainda espera seus doces e biscoitinhos holandeses. É uma vontade que me move e, ao mesmo tempo, me puxa para baixo. Meus desejos são os menos egoístas. Juro que não desejo dinheiro, nem uma vida calma e mansa. Eu só queria ser um pouquinho melhor pra humanidade, um pouquinho melhor pra mim. Só para fazer uma pequena diferença, dessas que ninguém nota. Quase ninguém. Mês doce, mês imbecil. Daí vê, você pensa mas quem é que é essa menina, que só quer ser Madre Teresinha coisa e tal. Aí eu digo, sem muita convicção, que eu só quero deixar o mundo mais bonito. Eu lembro de tudo, cada detalhe.
Não precisa se sentir mal por mim, só porque eu não consigo ter nenhuma meta de ser uma boa pessoa alcançada. Não, não se afete de nenhuma maneira por isso (e, caso você não dê sinais de qualquer sentimento, infelizmente, você se trata de uma pessoa indiferente e indiferença é o pior sentimento que existe), só porque não dá, porque eu quero e não dá. Já me acostumei com essa situação, afinal de contas, eu sou a mesma filha da puta de sempre. E se eu tenho letra pequena e ilegível, é porque eu não quero que ninguém entenda que eu sou uma problemática que detesta demais a maioria das pessoas. Detesta suas atitudes imbecis, detesta o modo como elas nunca te olham nos olhos, o desdém. Um, dois três trés bièn — repeat. É um dia nublado, de um outubro estranho e quente e eu estou aqui, filosofando ainda sobre esse mês das crianças. Sou eterna criança, gosto de doces, desenhos animados e jogos, às vezes beiro demais a ingenuidade, ainda sou tipo sonhadora e ainda arrumo os argumentos mais absurdos para justificar-me. Crianças é que são felizes (ou tristes). Alguém me traga de volta paga o mundo, preciso do meu sarcasmo cortante. O meu vizinho escuta Madonna Whore toda a vez que briga com a namorada. Mas ela não sabe disso. Ela saiu de casa e eu sei que ele não sente falta dela.

Só pra provar de novo que eu estou errada pela milésima vez e que esse negócio não existe que essa regra foi quebrada.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Bailarinas

Você tem alguns anos de vida, não sabe nada dela e nem tem a consciência de que nunca vai saber porra nenhuma da puta da vida. Você não tem consciência do que está a sua volta, lá, nos seus poucos anos de vida, mas não é alienado. Você sente o mundo, a indiferença. O nada que é tudo, a falta de não saber conceituar exatamente o que é que você deveria colocar nas suas prioridades. Você, meio pirado, meio louco, meio perdido, sem espaço pra nostalgia, no auge da sua juventude, no seu mundinho, brincando sozinho. O seu melhor amigo que te trocou. Você faz aquelas comparações e chega a conclusão de que não era tão insubstituível como você imaginava que seria. Você não se sentia só e triste quando acreditava na falsa idéia de um ser insubstituível. Como você está na infância e, teoricamente, ainda é uma pessoa tola e ingênua que não sabe nomear os sentimentos, você, uma pessoa substituída por outrém, começa a ficar triste e nem sabe o por quê. Mas, depois passa. Você não sabe que passa, mas passa. É mágico e é a única certeza que você tem, mas você não sabe que isso é uma certeza. Depois você esquece. As bailarinas dançam, na calada da noite, com suas pernas compridas, esperando que alguém as entenda. Esperando serem encontradas e jamais esquecidas.
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Essa minha mania de nunca querer fazer sentido. Hoje eu estou aqui, escrevendo, hábito que me faz feliz. Não muito feliz, só reflexiva.