sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Desculpe,

No supermercado, O Encontro. Sempre foram muito diferentes um do outro. Não se sabe como passaram vinte e dois anos e dez dias e oito horas e vinte e quatro segundos juntos. Supermercados são a terra das possibilidades. Onde acontecem os encontros. Os Encontros, na realidade.

— Olha, eu queria dizer que foi uma grande besteira termos terminado nosso casamento daquela maneira, daquele jeito tão precoce, tão impulsivo. Eu te amo e eu tenho certeza que você me ama também e eu sei que esse vinho do Porto que você está comprando, você está comprando para tomar mais tarde pensando em mim. Nessa besteira. Foi a maior burrada de nossas vidas. Vamos voltar, sempre tivemos uma vida perfeita. Aquele divórcio foi impensado, nossa, você me faz tanta falta. Será que você sente o mesmo? Eu sei que sente, eu não posso sentir isso sozinha. Vinte anos não podem ser jogados fora dessa maneira, ainda mais quando existe um sentimento e esse sentimento é recíproco. Não se faça de idiota, eu sei que você sente o mesmo que eu e só reluta em admitir o que é óbvio! Lembra? A ruiva da sua vida? Você disse!

Ele, vendo a ex-mulher mexer a boca, tudo incompreensível. Tira os fones do ouvido e diz:

— Ãnh?

Ela fica estática. Absurdada, como ele pode se fazer de desentendido após tudo, fingir que não ouviu.

Ele torna a colocar os fones de onde não deveriam ter saído. Ela torna a falar.

— Ruiva da sua vida, Arnaldo? Um estorvo! Pode dizer! Mocréia da sua vida, não é? Contratempo da sua vida? Eu… não posso deixar você escapar de mim assim, de novo! Aliás, você nunca comprou vinho do Porto enquanto esteve comigo! Existe outra! Aposto! Você me trocou! Meu Deus, acabo de descobrir que fui traída pelo meu próprio marido. Por vinte anos! Aposto! Só pode ser esse o motivo. Comemorando? Conseguiu o que queria? O divórcio? Sempre quis se livrar de mim, não foi? Seu escroto!

Ele tira os fones de novo.

— Ãnh? Quê? Desculpe, eu não estava escutando.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

E era assim que se sentia. Como uma borboleta com cores de melancia que voava sem pensar em nada por cinqüenta e nove horas.

Ou sei lá quando tempo vive uma borboleta.

Barquinhos

— É como um barco dentro de uma garrafa. Você pode ver, mas não pode tocar.
— Quebra a garrafa e pega o barquinho pra você.
E ele é de marfim.

Do absurdo

Assim. Eu tava usando um brinco, né. Argolas. Muito bonitinho, sei lá, de metal. Acho que é metal. A base que é a que passa pela minha orelha é fina. E a que fica exposta é mais grossa, tipos, do diâmetro da ponta de uma caneta. Ai, estou tão didática hoje.

Aí que eu tava tirando minha camiseta violentamente porque eu ia transar.

A última parte eu inventei, mas é fato que eu tirei a camiseta de maneira um pouco (muito) violenta, porque eu queria tomar banho. Porque o calor do Rio inviabiliza qualquer calma.

Orelha começou a doer um absurdo, aí eu pensei: “f-o-d-e-u, tô com a orelha rasgada, que horror, que feio, coisa mais feia — preferia falar desafinado a isso”.

Aí eu olhei no espelho e, nada de rasgadinho. Aí eu pensei “mesmo assim, deve ter acontecido uma merda muito grande, porque tá doendo um absurdo”. Aí eu fui procurar a… como é que chama? Tarracha? E, sério, ela, que deveria estar atrás do meu lóbulo, estava tipos… quase do outro lado dele.

Ou seja: a parte grossa ponta de caneta e-n-t-r-o-u no virgem furo da minha orelha, que antes portava a base do coiso que era uma agulha, praticamente.

Deu pra entender? Sério. Sangrou (muito), doeu (e dói) pra caralho.

— Ju, tenho uma coisa horrível pra te contar.
— É sobre você?
— É.
— Vai me fazer chorar?
— Chorar não. Você só vai se traumatizar.
— Hm. Manda.
— Então, (…)
— Que horrível, que horrível, vem cá, me dá um abraço. Não, pera. Fiquei com raiva de você. Não quero mais abraço.

São cinco e dezesseis da manhã (madrugada) e, sério. Eu moro perto do sambródamo e tá escândalo. Mas não é por isso que eu não dormi até agora. Acho que é porque eu dormi que nem uma filha da puta o dia inteiro. Uma filha da puta alcóolatra. Fora que eu sempre tive insônia.

Vontade de ir na praia. Sentar na areia e olhar pro mar e pro céu sem sol (frisar essa parte). Tenho grana pra ir, mas não pra voltar. Ei, como faz?

Tô com umas idéias fodíssimas de customizar umas camisetas. Então, vou. Você sabe, camisetas são eternas nessa vida.

Pela primeira vez saí de chinelo na rua. Chinelo, camisa de lenhador, shortzinhos implantados pela Júlia, amiga gostosa que eu amo tanto, sei lá… Óculos escuros? E foi mágico, porque, porra… Tudo comigo é mágico e intenso.

Foi mágico. Vou usar chinelo pra sempre. Desaprendi a língua das pessoas chiques. Vou comprar um par de chinelos pra mim. Mas, são tão caros. Primeiro os tênis. Não tenho mais tênis com sola, sabe. Aí é meio foda e, calma, caralho, eu sei que eu bato na mesma tecla sempre. Mas ela é minha e eu faço com ela o que eu bem entender.

P.S.: Frase do ano: “não há nada como transar a luz de um laptop”.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Rapt

Da qual eu tentei me vingar com a minha ilustre presença, já virou poeira. Poeira e fumaça. Não que os dois estejam intimamente relacionados. Só para expressar uma mesma idéia inicial. Aquele seu café, foi o café mais horrível que eu já tomei na minha vida e eu quase cuspi ele na sua cara. Sabe aquela música? Sempre entendi “how to be a camaleoa” e não rapte-me.
Primeiro, dona Yolanda disse que não vai se casar nunca mais, porque não ama ninguém. Mas há a exceção da regra, ela ama Tim Curry. Travesti e tudo. E ela só casa se amar alguém. E ela ama o Tim Curry. E ele não ama ela de volta. Então ela fica na dela, tomando café, processando quem der na telha e falando dos três maridos.
Primeira regra sobre todas as coisas: você deve saber o que eu quiser contar. E é assim com todas as pessoas.
A não ser que você seja um invasivo filho da puta.
Segundo, que sobre todas as coisas, descobri mais um medo. Como vício, substituir um por outro. Sou inteligente e escolhi medo antigo e esquecido: cigarras.
Cigarras, cigarro. Ela disse pra mim que o segredo era não se importar e saber utilizar a vírgula. E eu não me importo, lálá, manhã de segunda-feira, eu não amo mais ninguém. Segunda-feira é o término de um pesadelo. Ou seria a continuação? Não sei. É após domingo. Mas com a vírgula eu já não sei. Lidar com vírgula eu já não sei. Nunca soube.

Hoje eu vi os fones mais bonitos. Eram brilhantes, tinham um metal, não eram escandalosamente grandes (e, por consequência, menos excitantes) e eu olhei fixamente para a orelha da mulher free hug rush do metrô. Acho que ela deve ter ficado constrangida. Há um ano eu não conseguia fixar meu olhar em ninguém. Excetuando coisas que, como eu, obviamente, não se importam.
Vai ver eu me tornei cínica.

Não sei se você notou, estranha, mas a minha camiseta tava rasgada. Um rasgado de dois palmos, porque aumentou. Contar as coisas por palmo é quase ciência exata. Minhas mãos são pequenas. E as suas? E aumentou por causa do seu abraço apertado, mesmo que sem querer. Posso usar isso como uma metáfora para as feridas da alma, do coração. Acabo de notar que preciso escrever um livro de auto-ajuda.
— Dói?
— Dói, mas porque você, despretensiosamente, fez crescer dois dedos e formou um palmo. O coração tá com rasgado. Mas você fez daquele jeito (de de de d e de sainha) d-e-s-p-r-e-t-e-n-s-i-o-s-a-m-e-n-t-e. E fez tão bem que acabou machucando sem querer.
Tertúlia é um nome horrível. Assim como Acúrcio. Ambos horríveis.
Despretensiosa, é claro. Tão despretensiosa como o cara que pegou o elevador comigo, que fazia pose de macho e escutava música (sem querer, que vaza pelos fones — fones não tão bonitos quanto os seus) das divinas do Mundo. Sempre tão despretensiosa, como todas as pessoas desconhecidas.
E aí as minhas bochechas ficavam vermelhas e a minha testa blanca quando eu chorava, na infância. Minha irmã diz que ela ficava assustada, porque parecia que o ódio corria nas minhas veias.
E hoje as minhas bochechas ficaram vermelhas e a testa blanca e parecia que o ódio corria nas minhas veias. Mas, não. Tristeza, angústia, sei lá mais que caralhos. Angústia, vai lá, angústia resume qualquer sentimento que você não saiba nomear.
Vai ver mar tem gosto de lágrima — ambos horríveis.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Tudo bem que eu tenho a minha esquizofrenia literária, né, escrevo as coisas mais sentimentalóides e, meses depois, falo dos ADÊVOGADO SANGUE QUENTE.
Isso passa.

O Café

Assim, eu trabalho em frente a um café (não é novidade, mas eu preciso ressaltar as coisas) e agora que tá rolando que eles colocam uns DVDs, pra todo mundo fica djibowa, feliz, conversando, fugir no meio do expediente pra fofocar, etc. Considerações:

1. Só que o som é absurdamente alto.

2. E chega nos meus ouvidos.

3. Não sei como essa merda de café aqui em frente funciona. SÉRIO. Aqui no prédio só tem os ADÊVOGADO SANGUE QUENTE e essa gente do café PASSA DOS LIMITES. Mas é de uma esquizofrenia musical absurda. Oscila entre EliteSapatãoMusical/Brasil e hard rock 80s. E uma versão instrumental da abertura de Mulheres Apaixonadas.

4. Tô quase no Macumba Online again. A propósito, obrigada para os que fortaleceram. Amo todos. Mentira.

P.S.: Amiga tatuou Vênus de Milo no braço. Super em cima, quase no ombro. Legal. Legal. Legal que quando ela coloca camiseta de manga, a gente só vê um par de seios e uma barriguinha.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Não consigo acostumar com óculos. Assim, não aceitar isso como um fato que, naturalmente, aconteceria. Sabe, tipos, tira o charme dos meus olhinhos amendoados e apaixonantes (a frase seria “tira o charme dos meus olhos”, mas Nathália prefere assim).
Chovendo oceânus no Rio de Janeiro. Muito bom. Agora vê, mas tô usando até casaco! Sério. Isso é incrível, porque há um quatro dias eu tinha que dormir só de calcinha e janela aberta (ok, janela aberta só se eu estivesse de calcinha & camiseta).
Mas, sério, muito feliz isso. Ontem peguei chuva e eu fiquei feliz. Mas, sério. Eu não me dou o direito da opção. Veja bem, eu nunca estou com um guarda-chuva na bolsa, então, eu teria de tomar chuva de qualquer maneira. Como eu sou uma pessoa com alguma inteligência, as opções eram: a) ficar puta e cheia de ódio no coração e ir na chuva xingando um ser-xis-indefinido b) chorar c) ficar feliz, cantarolar e sentir que as pessoas acham que você tem algum tipo de problema mental/alegria proveniente de mendicância (mendigos são felizes, sempre cantam).
E qual a opção que eu escolhi, pessoal? Cêzinha.
<3
Você é meu pedacinho do muro de Berlim. Nho.
Regra nº 1: você só deve saber o que eu quiser contar.
Vivo na intensade que amo.
Minha vida tem sido ócio.
Olha pro meu coração de diamante.
“Tire as crianças da sala. Não indicado para cardíacos. Muito menos cardíacas infartivas convulsivas que desejam marca-passo para felicidade.”

Porra. Coisa linda.

Troáca

Eu tava sentadinha no metrô e tal. Após quase socar um cara atarracado vai comigo todo o dia, ele tem o cabelo comprido, bem biótipo rato de academia e ele escuta metal no alto-falante. Escroto, escroto.

Aí, para não cometer uma violência e tal, eu me dirigi ao outro lado do vagão e tinha uma mulher hippie falando que na geração dela o que ligava era o amor livre, blábláblá e aí ela começou a falar de sexo. Que sexo era uma coisa sagrada, que não tinha contato maior do que o proporcionado através do sexo, blábláblá, é tudo troca de energia e eu fiquei pensando nesses negócios de troca de energias, de contato e bláblábláblá e não sei mais o quê. Até deu tesão.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

— Ela é infantil.
— Tipo imatura?
— Isso. Que trepa duas vezes e diz “eu te amo”.
— Olha… a gente nunca trepou e você já disse “eu te amo”.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Voltei. Agora tenho uma percepção errada da realidade. Esbarrei em inúmeras pessoas, quase caí quando subia-descia degraus nas calçadas e a vendedora é uma ANTEPÁTECA.

Aí, no caminho, eu tava pensando, né... Juliana Paes tem a obrigação de ter uma visão perfeita, porque tipo, não deve ter óculos no mundo que cubra toda a extensão daqueles olhos com não sei quantos milímetros pra fora de onde deveria estar.
Tem uma menina que trabalha comigo que fala desafinado. Coisa mais feia.
Nho. Ontem eu tava na minha cama, quietinha, olhando pro teto e tentando dormir, tipo com cobertor e pantufinha. Na realidade isso é meio inviável, porque anteontem fez 40ºC e o tempo não dá sinais de que vai esfriar, mas, enfim: Como sempre. Altas revelações na madrugada. Sabe, que mierda. Que grande merda. Porque, aí vê, de repente, depois de não sei quanto tempo, mas, ó, seu que um tempo do caralho, bateu aquela coisa. Medinho. Medinho de viadinha. Medinho merda medinho merda merdinho. Medinho bizarro, de anjinho de pantufinha, suado e desconfortável com certas coisas que lhe foram reveladas na madrugada, sabe. Altas revelações.
Ai. As coisas precisam ser incondicionais. Sério. Se rolar essa garantia, juro que fico macha.
Hahaha, então, eu fico 9838948943 dias sem falar nada de interessante e, na minha oportunidade de ouro para salvar as suas respectivas vidas, eu venho falar da bosta que é buscar esse óculos. Agora é meidia, daqui a pouco vou lá. Depois eu volto e conto a aventura.
Se duvidar aquela puta da vendedora deu um jeito de atrasar mais um mês, sei lá.
Acontece, mas tenho meus momentos de não-romantismo.
Hoje é dia de ir buscar aquela bosta de óculos dos inferno.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Mito do pau

Você confiaria em alguém que nunca comeu palmito? Você gosta de palmito?

Eu não.

Mas é porque eu nunca comi.

XVII

— Você é cruel, Raquel. Viu? Rimou.
— Claro que não. Sou um doce. Angele.
— Não é o que parece.
— Claro que é o que parece, ô countryside girl.
— Eu sei que é! Mas você me confunde muito. Mimimi.
— Ah, super confundo todo mundo. É tipo meu passatempo. Não tenho mais o que fazer. Porque, você sabe, né… O Estado impede que fiquemos em ócio para não atiçar a oficina do diabo. Mas, eu me desvio do sistema, né. Aí, passo madrugadas a fio pensando “como vou confundir pessoas tolas e despreparadas como a Layla?”.

Inesperado 5

— Ju, arrumei um namorado pra você.
— Quê?
— É, é isso mesmo. Uma potencial paquera. Vocês não se conhecem, mas vão se conhecer. Escuta, você sabe ser interessante, né?
— Quê? Não, quer dizer… Não sei. Sei lá. Er. Como assim? Enlouqueceu?
— Então, chica, ele tem o cabelo comprido, orelha arrombada e é vegetariano. Que nem o seu ex namorado. Não tem problema, né? Ele também tem o nome do seu ex namorado. Mas não é o outro, aquele lá. Não tem problema, né? Acho que ele vai gostar de você.
Ele é amigo daquele amigo meu que você não quis conhecer. Ué, que tem que o menino era radical? Era uma pessoa extrema, mas era legal. Agora não adianta mais. Ele foi embora e só volta… Sei lá. Novembro. Sabe, esse meu amigo que você não quis conhecer. Você espera até novembro para conhecer seu novo namorado, né? Porque eu não conheço ele também. Só de vista. Agradou as vista. E aí eu vou ter que pedir pra esse meu amigo me apresentar o seu namorado. Porque eu tenho que fazer uma análise emocional dele. Etc. Saber se ele não vai te perseguir depois do término. Alto? Claro que ele é alto. Vou arrumar uma pessoa da sua altura? Seria ridículo. Um casal de anões. Desagradável pras vista.
Ah, em novembro você vai viajar também? Como assim? Que puta que pariu. Eu te arrumo alguém e você foge. Ah, como sempre. Como sempre. Essa gente que curte uma fuga, viu. Puta que pariu.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Inesperado 4

Porra, tava tão afins de comprar um cinto com uma fivela gigante, tipo cowboy. Sei lá. Tão legal. Tão chocante. Incrível. Chocrível.

Inesperado 3

— Porra, Tate. Eu subi essas escadas no breu, morrendo de medo. Inferno. Só faltava ter um estuprador ali no meio!
— Onde tem estuprador? Eu quero! Eu quero!

Inesperado 2

— Você só veste trapo.
— Eu vinha pra cá te encontrar com um tênis sem sola.
— Só trapo. Vou te doar umas roupas.

Penso: só tenho elas.

Inesperado 1

— Cê toca violão?
— Não.
— Tem cara.
— Nems. Cantar mal e tocar flauta serve?
— Claro!
— Que bom. Então, você toca alguma coisa?
— Myself.