segunda-feira, 23 de março de 2009

Bracho

Bom dia. Meu nome é Paula Jocasta, tenho exatos vinte e dois quentíssimos verões, assim, superlativo — socorro — não quero verão. Quero inverno, bem frio. Vou me casar no inverno, porque no verão todo mundo sai da praia e vem suado. Mas, a contratio sensu, estou sempre verão, sou sempre verão. Quente. Ui.

Meu trauma de infância foi sempre o fato de não ter umbigo. Pois é. Eu nasci sem umbigo. E sempre usei vestidos. Mamã educou-me para ser uma lady, porque true ladies utilizam vestidos, enquanto que minhas conhecidas sem o mínimo de bom senso brincavam com o Bonecão do Posto, de calças jeans. Eu era bem feliz, mesmo na minha solidão. Um dia, minha única amiga, que eu sempre julguei que não tivesse umbigo, assim como eu, foi me visitar. Aí eu a tranquei no armário. Visitas não são comuns, afinal. Ela nunca mais me visitou. Burra ela.

Eu sempre fui bem certinha, nunca fumei, nunca bebi, fodi, etc. A parte sexual é mentira, porque aí de não beber-fumar a viver sem sexo é demais pra mim. Tive uma educação judaico-cristã semi-perfeita, pois fui criada por uma senhora que era a gerente de um estabelecimento que vendia roupas fora de “moda”, cujo nome era Olávia Modas. Olávia, cara. Olávia. Como eu posso confiar em alguém que se chama Olávia? Me diz.

Meu primeiro amor foi um homem chamado Adenilson, que, um belo dia, cantou aquela música do Bon Jovi, como é o nome? Always! Pois é, hoje em dia eu odeio. Top 10 Ridículas. Ele era cristão como eu, que desejava uma boa passadeira. Felizmente, nunca entrei naquelas comunidades bregas de site de relacionamento tipo “lugar de mulher é no tanque” onde uma foto mostra a banal parte do bicho homem macho viril — barriga.

Eu era apaixonadíssima, superlativo, apesar dele ser meio esquisito, ter um olho maior que o outro e falar “menas”, nada contra, acho ótimo, mas sabe que é? Eu sou professorinha, de português. Eu finjo que sou.

Um dia, vendo o quadro das travestis no programa do Chacrinha, disse a meu pai que desejava me transformar num homem para ser transformista também. Aí ele olhou pra mim e riu. Juro.

Um dia, beijei Adenilson e o encanto se desfez. Até porque ele tinha uma lanchonete cujo nome era Q Delisia e isso sempre foi demais pra mim. Tenho parâmetros. Aí eu troquei de amor. Depois eu gostei de um cara que falava “Globo Rurar”, que escrevia “conserteza”, etc.

Descobri que gosto muito de homens baixos, vesgos, que são professores de inglês e escrevem “foto shop”, que são uns putos, etc. Só que caminhamos no mesmo lado do arco-íris e creio que isso seja um problema. Layos é o nome dele. Com ipssinoly. Laios Beyjos. Corações que se rabiscam no céu, tipos uma linha vermelha e eu dou um tiro, de fuzil, salto 15. Não permito.

Layos, burro que só ele, burro que nem a minha ex-amica. Só pensa em dinheiro.

Nem pra abrir uma lanchonete, vê. Layos.não.tem.parâmetro.

Aliás. Agora bebo e fumo. Sem sexo, porque sexo é demais pra mim.

Um dia eu enchi ele de viagra, de álcool, ele dançou, rodopiou, fez escândalo, caiu. Ele quebrou os dentes, eu perdi todo o tesão nele. Por que? Porque ele falou que precisava de mim, que me amava, que sentia a minha falta e mais uns absurdos que não ouso nem transcrever.

Adoro beber. Adoro fumar, me traz o Derby, filtro amarelo, meu amor. Não, mentira.

Nada não.

Paula Jocasta Maria da Silva dos Santos Ruína, prazer.

domingo, 22 de março de 2009

q

Querido Diário Bacanudo,

sei que te esqueci. Mas eu tenho preguiça, que é, basicamente, o meu maior pecado. Pecados sempre capitais, obviamente. Não considero os pecados cristãos, pois deles sou naturalmente livre — juro, porque é fruto da minha criação de pessoa correta. Eu sou certa sim, porra. Só não sou politicamente correta.

Hoje eu acordei mais ou menos 5:30. Com o despertador de alguém que eu julgo que seja vizinho meu, homem. “SOLTA ESSA PORRA, VEM SENTANDO!”, eu imaginei que fosse despertador, porque de cinco em cinco minutos essa frase tão bonitinha tornava a adentrar a minha casa.

Aí eu acordei, resolvi que ia comprar pão, porque uma casa sem pão não é casa, etc.

Porra, mas eu sou tão livre. Baguncei meu cabelo estrategicamente, coloquei um short (no singular, cara, não é “shorts” é chórte, tipos, bolacha é tapa na cara, entende?) e alimentei As Gatas (dessa vez, no plural, porque é mais de uma).

Cata (Gata 1): é a que eu falei anteriormente.

Catínia (Gatinha, nº 2): é a Nova Gata, por uma longa história. Mas ela está aqui, ela é cinza, tem umas partes esbranquiçadas e a minha prima disse que acha ela feia, mas, né, obrigada. Todos os catos são lindos, disse eu e disse a velhinha senhora sua vizinha com doze catos, que ela também deve julgar que não produzem nenhum tipo de cheiro.

E desci. Desci e vi os velhinhos em altos papos na banca de jornal. Puta que pariu, eu não tinha dinheiro em mãos para comprar jornal. Só pão. Mas, tá, pão faz a vida. Aí conversei, socializei, joguei na roda uns papos de amor, uns papos de pânque revoltada contra o sistema, fui simpática, sorri pra caralho e eles disseram que eu sou linda e que pareço com mamãe. Não sei como eles sabiam quem era mamãe, mas ela é a minha cara mesmo, então, djibowa.

Anteontem eu fui visitar o alemão que disse que eu tinha cara de peruana/boliviana/whatever mas ele não estava lá. Aí eu pensei, ele disse que ficava lá só as quintas. Ou as quintas e sextas? Ou eu não andei o suficiente?

Aí que eu vi um hippie bacanudo que vendia brincos clave de sol. E anéis clave de sol e ele disse que eu poderia pagar o quanto eu quiser, porque eu era gente fina, não sei mais o quê, mas eu dei um preço justo, porque não sou filha da puta nesses casos. Minha extroversão tá caso de louco, faço amizade com todo mundo, tipos, malandra. Ele me contou que eu não era nascida quando ele começou a fazer os anéis-e-brincos-clave-de-sol, que há mais de trinta anos e os caralhos e ele tinha a barba branca e a cabeça branca e parecia ter trinta anos. E ele disse que adóra trabalhar com pedras e me deu pedras, porque pedras contém energia coisa e tal. Foda-se essa reforma ortográfica.

Aí eu peguei o metrô. E ele estava meio cheio. 20h. Por que é que aquela merda tava cheia? Não era pra ser assim. Raquelzinha, pense.

Sei lá. A lógica não existe, então tá, o mundo é louco.

Aí eu penso por que é que eu pegaria umas vinte pessoas naquele vagão, sendo que umas cinco se encontravam no metro quadrado em que eu me encontrava. Pelo menos eu sorri, porque sorrir pra gente desconhecida é uma coisa bonita.

Aí todo mundo desce na Praça Onze e eu penso que tenho algum tipo de problema mental, afinal ninguém desce na Praça Onze, que, aliás, deveria ser só desembarque, tamanha não-quantidades de viv'almas que ali teriam de habitar.

Aí eu penso. Praça Onze. Hm. Show? Show de quem? Flashblack: “Raquel, eu te dou R$ 10 e a Layla te dá mais R$ 10 e o resto você arruma”. Thom Yorke, meu amor, Radiohead. R$ 100 a meia. Pra puta que pariu essa merda de meia. Cara pra caralho. Nunca vi.

Chan Marshall perdoa. Mas Thom, será?

Durmi e fiz uma pausa. Acordei e mamãe disse que o vizinho tá reclamando das gatas e eu percebi que mudei muito, porque a possibilidade de ser grosseira tá bem alta. Respira, um, dois, três.

Tô tomando café. Meu tesão pela vida & pelas pessoas aumenta absurdamente quando eu tomo café, considerando que antes de adentrar o vagão das Pessoas Pegáveis, eu tinha tomado cappuccino. Mas isso não tem nada a ver.

Aí eu pensei em No Surprises, e os olhos começaram a marejar e, puta que pariu, eu não ia chorar por causa de Radiohead, nem tanto pelo fato de ser uma das bandas top coração, pelo fato da Apoteose ficar a dez minutos (a pé, claro) da minha casa… Nem por isso.

Por que é que foi, então? Nem sei. Malzae.

Ah, sim, aí o cara dos brincos clave de sol falando que o povo brasileiro é muito esquisito, porque adora ir na Rua da Alfândega e comprar as coisas pré-fabricadas e que o artesanato é uma coisa muito mais bonita, mas que a vida do artesão é muito fodida, não dá lucro nenhum, etc etc etc. Senti pena por ele, porque o cara era foda.

Hoje a tarde eu dormi. Alcóolatra. Alcóolatra. Ai, não quero ser assim.

Beijos,

sexta-feira, 13 de março de 2009

Desculpa, pt. 2

Dedico a Nathália K. todo o conteúdo abaixo, somente para comprovar suas suspeitas previamente discutidas ao telefone, onde, ela, obviamente, me venceu com seus argumentos muito bem fundamentados.

(onze anos antes)

— Ei, você me frustra!
— Você quer o fim do nosso relacionamento, é isso?
— Não, não. Você só me frustra. Só disse isso. O que há para o almoço?
— Como assim?
— Ah, só estou dizendo que você não corresponde a nenhuma expectativa minha. Que horas são?
— Nenhuma, absolutamente, nenhuma expectativa sua?
— Nenhuma. O cheiro da comida está muito bom, o que é?
— Mas… como? Isso é impossível. Se você está comigo, é por algum motivo! Não é?
— Acho que é. Ah, foi só um comentário. Está tarde, nossa, olha o sol. E eu ainda vou almoçar. Olha lá o sol.
— Eu não quero saber de porra de sol nenhum. Eu quero exemplos, fatos!
— Ué, essa sua camiseta. Horrível. Velha, rasgada, furada. Você deveria usar minha camiseta. Mas, não, prefere manter seu orgulho bobo. Me passa o relógio aí.
— Que orgulho? Eu tenho algum orgulho, Arnaldo? Que orgulho. Sou quase franciscana, humilde. E como você me diz isso, assim, na lata?
— Você pediu um exemplo. Acho que vou comprar um aspirador de pó. Tenho que me modernizar, sabe, essa vida cotidiana requer muitos sacrifícios.
— Meu Deus! Você quer terminar o nosso relacionamento, é isso? É isso que você está querendo dizer?
— Não, eu disse que você me frustra e só. Você leu o jornal hoje?
— Como assim?
— Todos os aspectos. O jornal de hoje tem umas notícias muito muito tristes. Rasgada, horrível. “Mulher bonita, inteligente, que saiba cozinhar” — disse minha mãe. Mas, nada. Ela só precisa usar uma bonita camiseta para agradar minhas vistas.
— Você não gosta do meu jeito desapegado, é isso?
— Isso não é desapego, meu amor. É só questão de ser bem vestida. Você já viu algum amassado na minha camiseta?
— Não é esse o mérito da questão. Você acaba de dizer com todas as letras que me detesta! Que descobriu que não gosta mais de mim!
— Na realidade, o fato é que essa sua camiseta é horrível e fim. Rasgada, furada. Parece uma moradora de rua. Você vai me dizer ou não o que há para o almoço?
— Não tem nada. Tem miojo? Quer?
— Quero. Acho.
— Foi só uma sugestão. Porque eu vou passear, preciso colocar a cabeça para ventar, estou em choque com as informações. Vou assim mesmo, com essa roupa. E os vizinhos vão falar de nós! Faça você mesmo.

Teimosia

— Não foi engraçado.
— Você sorriu.
— Sorri de sem-graça.
— Por dois segundos?
— Dois milésimos de segundo.
— Mas, sorriu.
— Na realidade, foi um esboço de sorriso.

Puta que pariu. Cortei o meu dedo. Não cortei, necessariamente. Eu grampeei um trecho escrito a mão de um livro que parecia com esse que eu leio. Grampeei o meu dedo. Polegar. Opositor. Da mão esquerda..

Dói. Puta que pariu, tá sangrando. Não posso chorar. Eu só choro quando eu tenho alguém para quem chorar, esse alguém, no caso, é a minha mãe e ela não se encontra no presente momento. Quando é que eu vou parar de fazer essas violências comigo? Parece aquela gente viciada, trocar um vício por outro. Eu troco violências ao acaso, serve? Minha orelha já cicatrizou, mas não são fatos relacionados. Posso inventar que um vampiro me mordeu. Coisa mais linda. Vampire. Satanic. Satanic.

— Qual é o seu tipo de degeneração?
— Isso não existe.
— (…)
— Aquela de todos os dias, oras pois.

segunda-feira, 9 de março de 2009

A e B

A: o que você faz nessa hora que não pode ver novela?
B: masturbação. Não. Brincadeira. Masturbação é pela manhã.
A: antes de dormir é mais legal.
B: relaxa e goza.
A: a equação é inversa: goza e relaxa. E dorme.
Acontece, acontece que não é sorte, meu bem. É sex appeal.

terça-feira, 3 de março de 2009

“Pois não é permitido aos mortais evitar as desgraças que o destino lhes reserva.”

domingo, 1 de março de 2009

Camile, eu não escrevo coisas bonitas/lindas, ou sei lá que termo você usou.

P.S.: Eu falo fofamente. Você que é… [insira aqui adjetivo]