terça-feira, 26 de maio de 2009

— Quel, olha que bonitinho.

Olho. É um garoto de no máximo cinco anos e… dreads.

— Haha, que bonitinho mesmo.
— Vou tirar uma foto! Anh... ohnnnnn... o dread dele caiu!

Olho. Era uma peruca de dreads. Que caiu.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Eu amo a minha mãe. Tá que ela é meio religiosa demais. Tá que ela não gosta de questionar nada do que acredita, mas eu amo, sério. Não tem como não amar a minha mãe. Sério.

Por exemplo.

Vocês lembram da Mulher Mentira? Acho que cheguei até a comentar aqui do que sucedeu. Ela foi embora. Mas meses depois ela voltou, porque ela não tem muito orgulho próprio. E eles brigaram. E ele tentou jogar ela de janela. E minha mãe disse “não faça isso” e ele notou que havia muitas testemunhas e desistiu.

Tá.

Aí que estão fazendo uma obra no apartamento do lado e é um barulho insuportável. Começa de manhã e só termina no fim da tarde. Minha mãe tem uma tendência ao sono, parece até narcolepsia. No meio da tarde ela dormiu vendo TV (óbvio, TV, livro, jornal, pensando na vida, ouvindo música).

Cheguei em casa e já tinham terminado o expediente do dia. Minha mãe aparece na sala.

— Mãe, o que a senhora faz acordada? São 18h.
— Dormi sem querer e tive um sonho horrível. E eu não notei que era sonho.
— Conte.
— Tão fazendo a obra aqui do lado, né… Sabe que na minha cabeça o barulho da obra eram tiros? Pois é. Juro. A Mentchéra (assim a chamamos) tinha voltado e o cara tinha se estressado com ela e tava dando vários tiros nela e eu gritando NÃO!, NÃO! e vários tiros e muitos tiros e tiros e eu aqui com medo de olhar e… aí eu acordei e. Do que você está rindo?
— É que foi um sonho tão complexo.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Sola de ser humano

Eram dezoito horas quando eu notei que deveria ter zarpado do escritório há duas. Mas eu estava bem sentadinha, tomando café, melhor café que eu já tomei na vida, pensando na minha calça com um grande rombo. Não sei se vocês notaram, mas do nada minhas roupas rasgam, camisetas, etc. A calça eu entendo, elas são utilizadas por mim exaustivamente há mais de um ano. Começaram a morrer. A trilha sonora é: Candy (sabe, Iggy Pop) sendo cantada por Wander Wildner. Wander Wildner é tipo a exceção da regra na música brasileira. Mas eu não sei o por quê eu insisto, gosto dele, mas que voz mais feia. Mas eu gosto dele.

Na sexta-feira fui fazer uma ultrassonografia pra ver meu neném. Não, mentira. Foi só pra ver se tá óquei, porque a doutora e o caralho a quatro acha que pode ter alguma alteração, nem sei. Como eu notei que ia demorar um pouco, aproveitei e fui fazer o exame de sangue.

— Oi. Escuta, você pode marcar aí para dizer qual é o meu tipo sanguíneo, porque eu nunca soube e isso me deixa frustrada, sabe, eu gostaria muito de saber, me sinto meio à parte da sociedade, sabe, sangue de barata, fico muito chateada mesmo, então eu queria saber, pra me sentir mais feliz e…
— Pode deixar. Vou colocar aqui.

Aí eu tive que repousar 15 minutos porque se não ia dar alteração num exame lá e o caramba e eu comecei a pensar, meditar e isso nunca dá muito certo, porque eu lembro de coisas fodas e emocionantes e o meu coração bate mais forte, depois lembro de coisas fodas de horríveis e fico meio mortinha. Quinze minutos sentadinha.

Aí o senhor tirador de sangue supermacho com monocelha foi bruto pra caralho. E totalmente não-profissional. Estourou um vaso. Doeu um absurdo. Ainda está dolorido. Sei lá, foi horrível. E encheram quatro tubos com o meu sangue. Quatro tubos, sei lá, quase morri. E, sabe, meu sangue parece vinho. Pensei que ele fosse mais vivinho.

Pois então. Aí eu fui lá na ultrassoam. A doutora e o caralho era muito bonitinha e sorridente, como todas as doutoras e o caralho daquele hospital, muito jovem, sei lá, não confio muito. Aí eu comecei a ser meio esquizofrênica e perguntar se alguém já tinha urinado sem querer, porque, sério… Perguntei se rolava um intensivão pra entender aquelas imagens que não faziam sentido. Fora que quando eu entrei, ela disse que eu não precisava tirar nada, quer dizer — já se desvinculando-dos-vínculos e, aí eu disse que tinha colocado a melhor calcinha, etc etc, o que não é nenhuma mentira, sabe. E perguntei como ela chegou a conclusão de que ia passar a paradinha nas bexigas com o risco de alguém se urinar e tal e aí.

Aí, eu lembrei de Juno. Sabe? “Volte para a escola noturna e aprenda uma profissão de verdade” e senti pena dela. Não que eu considerasse uma não-profissão, mas, sabe “até a minha filha de cinco anos faz isso e ela não é o gêniozinho da família” (escrevi “familha”).

Mas aí eu saí e notei que o sapato tava meio sem sola e eu notei que eu sou sem sola como pessoa.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

— Já parou pra pensar que nossos pais nos imaginam transando?
— É estranho. Prefiro não pensar nisso.
— Desculpa. Você sempre vai se lembrar.
— Pensei muito. Não gosto daquela moça. Faça assim: ligue para ela agora e termine tudo. A propósito, se ela começar a chorar, por favor, ponha no viva-voz.
— Eu sei que relacionamento é uma coisa difícil. Porra, claro que eu sei. Eu sei que você tem que se doar e ser muito tolerante — altruísta pra caralho, tudo em prol do outro, porque existem imperfeições, porque existem desentendimentos, brigas, etc etc, os acontecimentos de sacaneando, mas tudo com um belíssimo propósito. Sei lá. É que, dessa vez, eu só preciso que dure, sei lá, uns dez anos. No mínimo. Quero muito.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

— Mulheres não devem saber qual é a importância do sexo na vida de um homem.
— Barcelos, qual é a importância do sexo na vida de um homem?
— Sabe quando você quer muito fazer uma coisa, algo que te impulsiona, tanto sendo uma vontade como quase uma obrigação irresistível, e se não faz aquilo pode acabar se sentindo mal mesmo? E sabe quando uma coisa te abala ao ponto de você ficar pensando sobre aquilo o dia inteiro, sobre o quanto quer aquilo, aquela falta que dói, mas que você sabe que pode viver sem, ainda que doa? É tipo isso.
— Sei sim. Na vida de uma mulher também.

terça-feira, 12 de maio de 2009

“Eu sou sua nerd, quer ser minha rinite?”

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Oi, meu nome é Raquel e eu gosto muito de flertar com abismos.

Pingente

E então eu lembro, de quando eu fazia natação e um garoto burro foi pro fundo sem saber nadar direito, esteve a se afogar e, então, eu o salvei da morte. Palmas para a Raquel. Salva-vidas.
Depois de subir em cima dele — tipo quem vai fazer uma respiração boca-a-boca, perguntar se ele tinha alguma espécie de problema mental, fazer um terrorismo básico e dizer que ele poderia ter morrido; depois dele olhar pro nada por segundos intermináveis, depois de, finalmente, olhar nos meus olhos, sorrir e dizer que o pingente do meu cordão era muito bonito (e eu nunca tinha notado), foi a primeira vez que eu fiquei sem reação. Na minha vida. Engraçado que hoje eu coloquei o mesmo cordão. E eu tinha oito anos.
De fato, é muito bonito.
O cara mais bonito que eu vi na vida inteira tava portando um casaco rosa no seu belo corpinho.
— Que vontade de de comer maçã.
— Que vontade de comer você.
— (…)

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Traga meu Derby de filtro amarelo

Que linda essa menina fumando esse cigarro. Porra, todo mundo nessas escadas fica bonito fumando. Fica aí, bonito, fumando, com maior pose do caralho, como se fosse uma coisa saudável, como se estivesse comendo um pratinho de salada de madrugada. Todo mundo com olhar inteligente, sorriso maroto, biquíni preto de bolinhas brancas. Obrigada, blossom.

Fume nessas escadas e pinte os seus brônquios de preto. Depois, fure o seu pulmão com um grampeador.
— Ó, com licença, a senhora poderia poderia colocar a sua mão esquerda na folha e desenhar o contorno?
Olha, eu realmente não gostaria de ser conhecida como a louca/bêbada observadora de pessoas desconhecidas. Elas realmente exercem um fascínio sobre mim — que sou mais ou menos facilmente conquistável, mais pra menos. É que, veja bem, é uma mania minha, mas papai também tem essas manias.
Na realidade ele tinha a mania de fazer o flerte do mês, rodar o Manual do Cafajeste de trás pra frente e eu também fazia isso, mas eu sou doce, sou mais sutil, falo do céu e das estrelas e do percurso que eu faço da saída do metrô até a minha casa, que dura quatro longos minutos.
Nossa. Vou lá puxar assunto. O típico assunto de gente sem assunto. É Marlboro? Light? Tá tentando parar, correto? Não? Como assim?

Ok. Não.