sábado, 29 de agosto de 2009

— Raquel, quando você está em casa você fica tão feia.
— Eu estou em casa. Tenho que ficar confortável.
— E a sua definição de conforto é usar um casaco três vezes maior que você, uma samba-canção, pantufas de cetim de um homem falecido?
— Ué… É.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Os homens do Centro do Rio

No ano retrasado, eu sempre comprava balas de hortelã e outros artigos com um senhor que vendia tudo isso do lado direito da saída da estação do metrô. Eu dava boa tarde e ele sempre sorria. Ele era careca. Um dia ele perguntou se podia me pedir uma coisa. Eu tenho sexto sentido forte pra caramba e, institivamente disse “não”, “por favor!”, “não”. Pedir para eu encontrar o filho que ele não vê há trinta anos — ok. Ver se a careca dele brilha o suficiente — ok.

Na semana seguinte ele perguntou se podia e, porra, eu disse um não bem forte, porque para insistir tanto assim, coisa boa não pode ser. Obviamente. Na outra vez ele mandou a educação à (crase) merda e perguntou se eu poderia trepar com ele. Claro que não foi com essas palavras, porque as pessoas não são diretas, elas dizem tudo com eufemismos, porque as pessoas gostam de eufemismos. Eu não esbocei nenhuma reação e fui embora, enojada, porra, eu compro balas e pessoa tem desejos sexuais por mim, por meninas novas e esquisitas. Doentio isso.

Eu detesto eufemismos sexuais e eu ia dar um exemplo de como as pessoas não são diretas e ia dizer que ninguém diz “ei, vamos fazer um papai-mamãe agora”, mas é um exemplo surreal demais, meio impossível. Acho bacana as pessoas que são diretas, tipo eu, que dizem “quero te comer agora”, ok, eu não sou tão direta assim, mas, vejamos, eu não insinuo as coisas, o que já é um grande passo. E, melhor, além de não insinuar, se eu insinuasse, não seria aquela insinuação escrota.

Então, eu passei a ir pelo outro lado da estação. O lado esquerdo e, basicamente, tanto faz o lado. O tempo é o mesmo. Fiquei com medo dele fazer mais propostas de ordem sexual.

Esse ano, um daqueles caras que dão papéis de Compro Ouro na Presidente Vargas me parou. Me chamou de princesa, disse que ele ficava lá até 17h e que poderíamos esticar.

Tem uma banca de jornal que fica perto da estação e um velhinho muito bonitinho vendia livros a R$ 1.00. Ele tinha um gosto literário horrível, mas volta e meia tinham algumas coisas boas. Ele era francês. Os livros que ele vendia eram os livros dele, que ele resolveu se desfazer. Ele tinha livros em francês, guias de astrologia e aquelas revistas de mulher solteirona tipo Sabrina. Hoje lembrei dele e resolvi fazer uma visita, perguntar da vida, etc.

O dono da banca agora era o careca vendedor de balas de hortelã e outros artigos. Ele tava de bigode. Fiquei horrorizada, ainda mais porque ele tornou a me cantar, tipo, ele disse que fazia desconto pra mim porque “por você eu faço tudo, morena” e, sei lá, horrorizada.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

E como parte da comemoração do Dia da Raquel, que se extendeu para Semana da Raquel, eu digo que essa semana eu vou fazer tudo o que eu quiser e eu vou mesmo e eu vou consertar tudo e eu serei mais cínica e ridícula do que nunca. E eu vou comer o que eu quiser. E eu vou pegar quem eu quiser. E eu vou bater em quem eu quiser bater e eu vou falar todos os palavrões do mundo. E e e e e e e e e… e eu vou comprar uma bala de R$ 0,10 numa nota de R$ 2,00 e vou dizer que não quero troco, porque “eu não trabalho com moedas”.

Verde, rosa, preto e branco. Acho.

Eu sou vascaína e mangueirense. Sempre disse que contaria as duas histórias porque elas são lindas e devem ser contadas.

Eu sou vascaína porque um dia, no auge dos meus independentes três ou quatro anos, umas vizinhas me perguntou qual era o meu time. Em toda a minha fofurice, perguntei “o que é um time?”. A Clarissa, putz, eu lembro o nome dela, me puxou num canto e eu pensei que, sei lá, ia rolar uns amassos. Ok, eu não pensei, porque eu não tinha toda essa malícia nos meus três anos, mas se fosse hoje em dia eu provavelmente pensaria assim. Então, ela disse: “diga Vasco, ok? Só isso” e eu disse. Essa é a porra da história linda da minha vida, eu, sendo manipulada por uma vizinha e mentindo na cara dura.

Uma semana depois, ou dois anos depois, vá saber, o Vasco ganhou um jogo relativamente importante contra o Flamengo e lá estava eu, a matriarca, com três machos flamenguistas, dentro do elevador. Eles putos e fazendo comentários desagradáveis. Como eu sou cínica, como a minha natureza é cínica, eu falei “eu sou vascaína” e olhei putamente fundo pra eles e eles ficaram constrangidos. O clima tenso palpável no ar, uma garotinha minúscula cheia da arrogância. O mais simpático e menos orgulhoso apertou a minha mão, me desejou parabéns e a minha mãe ficou chocada.

É lindo, vá. É superficial mas é lindo.

Eu sou mangueirense porque eu nunca tive contato com o meu pai. Quer dizer, a nossa relação é ótima, ele é parecido comigo, ele me conhece apesar de não nos vermos muito, ótimo gosto musical, mas nunca teve aquele contato, aquela coisa de falar todo mês. Todo ano. Ele é comunista. Comunista, sabe? Não tem telefone fixo, se exime ao máximo da culpa de viver num mundo capitalista e escroto. Então é difícil falar com ele. Até porque ele vive viajando (não, ele não é hippie) e eu não sei qual dos endereços dele é vigente e é como tentar falar com um traficante. E eu não vou escrever cartinha ou ligar pra alguma das minhas tias-xis pra descobrir o paradeiro do velho. Ai, que horror. Como eu sempre tive essa consciência de que eu não sabia quando iria vê-lo novamente, tinha que tornar a porra toda intensa e única.

Um dia ele apareceu com uma camisa rasgada, meio punk, assim, com um “100% MANGUEIRA” em neón, uma coisa meio guêi e eu fiquei com medo de desapontá-lo e dizer que não gostava de escolas de samba e carnaval e essas coisas. Eu fui bonitinha, escondi a verdade.

Aí na apuração dos votos eu morro, fico puta, fico com uma taquicardia, sabe, tomo café pra caramba, meu rosto fica quente, etc.

E eu queria dizer que hoje é o Dia da Raquel, que eu criei, que foi pra mim. Hoje é o dia em que eu vou fazer o que eu mais gosto de fazer, excetuando coisas de ordem sexual, tipo, hoje eu vou ver um filme, beber alguma coisa que me deixe feliz e leve, hoje eu vou dormir com uma calcinha ridícula no frio, hoje eu vou despejar verdades de madrugada, hoje eu vou tomar muito café, hoje eu vou, eu vou não, hoje eu estou usando a minha camisa de lenhador preferida e ponto final. Quero nem saber. Foda-se. Hoje vou analisar desconhecidos. Fim. Ponto. E por que caralhos eu não consigo cadastrar essa merda de petição inicial, porra?

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

— Renata, o Henrique mordeu o meu braço. Cara, vai cair. Vai gangrenar, Renata. Porra, Renata. VAI GANGRENAR, cara. Gan-gre-nar.

Ironia

— Raquel, você está tão sexy hoje.
— Sexy? Como assim? Você tá me zoando?
— Não.
— Sexy pra mim é ironia.
— Talvez o cabelo caindo no seu rosto, você com o ar tão despreocupado, nem notando nada… esse cordão que você está usando e acha que ninguém vai perceber. Talvez sejam as suas calças, que ficam caindo, a maneira como você tem essas manias tão bonitinhas, quase um tique nervoso (aí eu penso que em coisas tipo um olho no peixe e outro no gato). Essa camisa com esse ar envelhecido, tão linda…
— No dia em que tudo isso fizer, sei lá, pegar alguém, eu te ouço.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Queria que alguém me visse agora. Me pegava fácil. Mordia minha bochecha fácil.
Se você me liga pra mandar eu me ferrar de novo, eu vou ficar puta.
Ana who

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Não se sussurram verdades.
Cara, 332 posts. Não tenho mais o que fazer. Mas já são dois anos enchendo a porra do saco.
Ir pra casa utilizando transporte público ou tomar um ovomaltine e ir a pé: eis a questão.

Dedicar minha noite a costurar minhas calças ou ficar bêbada no computador: eis a questão.

É que as minhas escolhas são tão existenciais.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Duas vendedoras diferentes me cantaram na semana passada. Não sei o que vendedoras tem comigo. Outro dia foi a caixa do ristorante. Não estou louca, juro. Eu nunca reparo, mas é que foi uma coisa tão la descarada. Ai, minha cara de fancha.

E em situações broxantes. Na primeira, eu comprava meias novas. Na segunda, eu admirava um casaco.

E dois caras que cairam na porrada na faixa de pedestres. Foi tão surreal. O fortinho chegou pra namorada do outro e falou algo como “quééééééssoaw gata, vem chover ni mim” e o namorado ficou com ódio no peito e voou no pescoço dele. E a namorada chorando do lado e dizendo “NÃO!” e eles também quase foram atropelados e, sei lá, se eu fosse a namorada, terminava na hora. Mó vergonha. Mó vergonha.

Não muito distante da faixa de pedestres da Avenida Presidente Vargas com Uruguaiana, há uns doze anos, eu vi a cena mais patética e horrível do mundo inteiro — um casal discutindo por causa de um peixe. Que, aliás, se encontrava no local. Congelado, ainda. Envolvido por um papel e um saco plástico.

Presenciando tudo. O casal discutia e, a medida que a discussão prosseguia, um tentava arrancá-lo do outro, com toda a violência do mundo.

— Eu vou preparar o peixe, porra!
— Não! Eu paguei. Eu vou preparar!
— Não foi o nosso acordo, você ia comprar e eu ia preparar!
— Eu não tenho nada a ver com isso…
— Quer saber? Já que você quer tanto esse peixe, pois, então, toma!

E aí ele bateu com o peixe congelado na cabeça dela. Relativamente forte, acho. Porque ela deu um gritinho fino e, em seguida, um tapa na cara dele e foi embora. Com o peixe debaixo do braço.

sábado, 1 de agosto de 2009

Virada Russa

“Grandes merda, uma bola dentro da outra!”
— Você tá esperando por alguém?
— Não.
— Eu estou esperando por alguém. Mas eu não sei se virá. Posso ser esperada por você?