terça-feira, 21 de setembro de 2010

Estávamos, então, lado a lado, vendo Precious. A cada dez minutos, eu ouvia algo como “puta que pariu, que menina fodida”, ou “porra, que mulher escrota do caralho” e assim sucessivamente. E eu olhava pra esquerda e pensava que, sei lá, espontaneidade é uma coisa linda, é o primitivo do comportamento humano. Tem muitas outras coisas que também são lindas.

— Que boca é essa, hein. (puta que pariu, que boca!, nooooooooooossa)
— Sempre que eu vou nas reuniões, eu solto alguns palavrões… fico constrangida, vermelha…
— Que erro. (porra, que lindo, mas eu não me referia exatamente a boca figurada e sim a física — lábios, certo? Nesse caso, substantivo simples, avermelhados, muito bem desenhados, assessorados por língua que, dependendo do dono, possui características únicas e… ops, estou desviando, um, dois três… foco, foco, meus pensamentos iniciais… deixa eu focar em alguma coisa aleatória) — me empresta esse anel?
— Tem que ser esse?
— Não sei…
— Esse eu não posso. Eu te conto a história dele amanhã. Vem cá, aquela história… a sua história, você vai me contar?
— Vou sim. Amanhã eu te conto.

Já fazem quase duas semanas. Pelo menos a dela ela me contou.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

2

É estranho quando você encontra alguém que está disposto (a) a ouvir as coisas mais idiotas que você tem a dizer, aquelas que você costuma omitir porque ninguém se importa (ou você acha que ninguém se importa). E então essa pessoa específica fala te olhando nos olhos e vocês compartilham histórias de anéis e algumas coisas que você não se lembrava fazia três anos. Que você preferia não lembrar, mas não se importa de compartilhar porque simplesmente tudo mudou.
É estranho quando você encontra alguém que está disposto (a) a ouvir as coisas mais idiotas que você tem a dizer, aquelas que você costuma omitir porque ninguém se importa. E então essa pessoa específica fala te olhando nos olhos e vocês compartilham histórias de anéis e algumas coisas que você não se lembrava fazia três anos. É estranho.

domingo, 12 de setembro de 2010

— Que história errada de emprego novo é essa?
— Eu saí do escritório pra trabalhar em outro, maior coisa e tal.
— Tá gostando?
— Sei lá, tá me cansando mais que o normal e eu tenho que me vestir que nem gente. Mas eu ganho bem mais, então eu tô dbowa.
— Que bom, então!
— Já posso pagar prostitutas. O que nos leva a:
a) Ser sexualmente ativa;
b) abrir meu próprio negócio.
— Me paga, então, já que eu estou necessitada.
Vou falar também que tenho maior vontade de colar todas as fotos no meu guarda-roupa, tipo um punheteiro de 13 anos.
Estranho quando a sua família se reúne pra ver a Playboy da Cléo Pires.
Estou velha. Com emprego novo e rotina tosca, eu não consigo mais pensar em nada, meu sono ocupa a maior parte do dia, acho que vou começar a tomar anfetaminas, etc. Sei lá, virei uma vítima do sistema coisa e tal.

Ontem, uns amigos me chamaram pra sair e eu nem tava querendo muito, meus pensamentos variavam de “eu poderia estar dormindo” a “eu poderia estar dormindo por 14h seguidas”.
Mas aí, vai que… sei lá, não tenho nada a perder, vou acabar morrendo sozinha se não aceitar que as pessoas curtem gente doente tipo eu e parar que querer poupá-las da minha (inevitável) loucura, vamo se amar. Aceitei o convite. O bom de ser uma pessoa despojada é que eu posso pegar qualquer roupa, foda-se não uso maquiagem, arrumar o cabelo de qualquer jeito e tipo… tô ótima. Claro que despojado pode ser um eufemismo pra pessoas totalmente largadas, sem bom-senso com a aparência e despreocupadas com a imagem para com o mundo exterior. Vários caras e gurias brotos, álcool, a seleção natural sendo retratada de maneira primitiva em situações aparentemente banais.

Apesar de achar graça, não sei o por quê atraio sempre os caras (brotos) mais lamentáveis que, justamente, são os mais ousados. O que era uma festa se tornaram quatro, devido as sucessivas trocas por parte dos meus amigos nômades que se fixam por algum tempo em algum lugar e vão embora.

— Oi, eu posso dançar com você?
— Tô com o meu marido. — olho pro meu amigo guêi, que dança como guêi, tem trejeitos guêis e cara de guêi.
— Qual é o seu nome?
— Lurdes.
— Só pra você não esquecer: o meu nome é Carlos.
— Tá, coração.

Puta meu, eu sou escrota pra caralho.
Preciso pegar uma bebida.

— Raquel, tô indo.
— Eu vou com você.

E são cinco horas da manhã e eu estou apoiada numa daquelas coisas de metal que tem na Lapa e eu não sei o nome, meio bêbada, meio sóbria, pensando que no final da noite só ficaram travestis, homens musculosos e eu dançando. Totalmente fora dos meus planos. Tava frio, eu com o casaco dele, ele com frio, eu pensando na vida, ele com vontade de urinar, até seria uma cena bonitinha. Tá, não. Mas aparece um cara do nada, falando assim:

— Sabe, eu tava falando com um cara ali sobre música, porque eu gosto de gente que entende de música e ele falou que Legião Urbana é a maior banda do mundo e eu falei — pera lá! A maior banda do mundo é o Michael Jackson, concorda? Sem ele não teríamos Thriller, Bad, Billie Jean… certo?
— Certo.

Meu amigo vai até o banheiro podre público da Lapa.

— Então, você entende de música! E eu gosto de pessoas que entendem de música. Você é brasileira?
Porra, claro que sim.
— Sim.
— É mesmo? De onde você é? Do Amapá?
— Não, do Rio.
— Mas você tem esses olhos…
Ui.
— (…)
— E o seu cabelo é tão bonito. Posso falar?
— Pode.
— Você é linda demais, você é maravilhosa e gostosa pra caralho, putz, me dá um abraço.
Abraço não se nega. Vem cá, meu nego.
— Posso ter um beijo, também?
— Nem rola, cara.
— Por favor.
— Eu vou lá ver se o meu amigo tá vivo, legal te conhecer, ok?

Tem coisas que só acontecem comigo.

— Lucas, o cara praticamente me estuprou, porra! Como é que você me deixa só com ele?
— Desculpa, eu pensei que ele fosse só falar de música e eu tava com vontade de mijar.
— Soou mais “opa, vou deixar vocês a sós”.
— Se eu soubesse que ele ia te agarrar, não te deixava lá. Quer dizer, a minha cabeça diz que não, mas o meu coração diz que sim.